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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Diário de valise - 29/12/2013



Entre o Natal e o Ano Novo passa um século. Parece muito distante a noite da sopa com o peixeiro e a vó Benta, mas faz só seis dias. De lá para cá, já vivi a ceia mais deprimente do mundo com a vó, os meus pais e irmãs ao redor da mesa farta de arroz colorido, peru, saladas, pudim, ambrosia, champanhe e frutas vistosas, na casa que já foi minha e hoje me parece tão estranha e sufocante. Acho que sufocante sempre foi, eu é que relutava em admitir. O combinado era passarmos a ocasião solene na casa da vó, nos empanturrando com os pratos doces e salgados comprados na padaria do Parque, até as bebidas e guardanapos, tudo organizado para não dar trabalho a ninguém, mas o pai nunca cumpre os acordos que fazemos e ao invés de entrar desejando Feliz Natal quando abri a porta foi direto ao ponto, com sua delicadeza peculiar: “pega a tua vó e vem”. Retruquei e me dei mal, como sempre. A festa já estava montada na casa dele, éramos apenas duas – uma menos lúcida do que a outra, votos vencidos, melhor que não criasse caso que não era dia de brigar. 

Tirando a tortura de suportar o pai sendo ele mesmo durante umas quatro horas a fio, permanecer lá não foi tão difícil. Comida natalina é supimpa, as manas são pessoas mais bonitas e interessantes agora que convivemos pouco – ou a saudade que tenho delas deturpa meu poder de avaliação, e a mãe, bem, a mãe continua daquele jeito dela de aceitar de um tudo e não se permitir coisa nenhuma. Depois de amanhã tem outra festinha em família para celebrar a chegada de 2014, e uma parte de mim quer que isso acabe logo para eu poder parar de me conter e de fazer caras e bocas de uma satisfação que não sinto, mas outra parte grita não e não, que quanto mais o tempo passa mais perto fica de a vó Benta morrer, gela meu estômago só de pensar nesse futuro próximo. 

A cabeça da vó vai de mal a pior. Pensei que no dia seguinte à visita do peixeiro ela acordaria perguntando pelo fim que havia levado Ernesto, mas não. Não tocou no assunto e eu deixei rolar, evitei ter essa conversa e fui cuidar da medicação, do banho, da roupa, do sono, do bem-estar dela. Até eu levar a canja, não faz muito. Então eu contei, medindo palavras, que Ernesto morreu há algum tempo, que andou pelo país, mas em seus últimos anos morou nessa cidade no lugar onde fui procurá-lo, viúvo e sem filhos. Queria que ela soubesse como as coisas aconteceram, mas que não sofresse. Mais. E ela me olha bem nos olhos por alguns segundos e diz que eu não devia brincar assim com os sentimentos das pessoas, então eu não sabia que Ernesto havia feito uma visita e até valsa tinham dançado? Expliquei que aquele era Júlio, o peixeiro, sobrinho do Ernesto. Para nada. A vó Benta deu uma risada e passou a cantarolar, ignorando a minha presença e a vontade que eu tinha de realidade, de manter as coisas em ordem. Para quê? Ela agarra como pode o que lhe sobra, seus pedaços de memória, só seus. Seria uma canalhice sem tamanho interferir nessa lógica da vó. E eu até que sou canalha às vezes na vida, mas jamais o seria com ela.

Um comentário:

  1. Fico pensando que pelo menos ela está feliz, nesse mundinho dela. A avó. É pior pra quem está junto. É pior quando se está lúcida.

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