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21 de janeiro de 2016

Diário de valise - 24/12/2013



Nem sete da manhã e já estou de olhos vidrados no teto. Desde que jantamos com o peixeiro meu sono escapa e sou inteira especulação, agonia e caraminholas. Julio – esse é o nome do peixeiro, e que delícia é escrever a letra jota maiúscula no caderno, caprichando nas curvas até dar início ao u para depois emendar no ele no i e no ô e só desencostar a caneta do papel para botar o pingo, aliás, é um substantivo próprio danado de irresistível que fica ecoando na minha cabeça enquanto tento registrar os pensamentos para não esquecer e me distraio, enfim – abriu sua bolsa de pano e iluminou a sala com pedaços de história familiar que de alguma forma nos dizia respeito. 

Sobrinho. Julio é um dos sobrinhos de Ernesto, filho do irmão Mauro com a cunhada Irene e irmão de três outros homens que vieram antes dele, Jonas, João e José. Todos com os mesmos pares de olhos azuis iguais aos de Ernesto, mas apenas ele com o resto inteiro semelhante ao tio, especialmente o queixo e as sobrancelhas, contavam as fotografias espalhadas sobre a mesa. Vó Benta parecia hipnotizada pela figura de Julio e seus achados: uma correntinha de ouro, calendário de 1956, documentos timbrados pelo exército, cadernetas de anotações, uma aliança, um endereço anotado em pedaço de papel, dezenas de cartas não enviadas à Benta do Amaral Leite, um cravo artificial de lapela, um livro de Drummond. 

A vó não vasculhou os pertences de Ernesto provavelmente porque está enxergando menos de longe, mas voou no livro assim que reconheceu o título. Sentimento do Mundo estava marcado por um retrato de mulher no poema Bolero de Ravel. Era a Benta no retrato, brilhante e jovem de cabelos longos. Comovidos, Julio e eu não conseguimos dizer palavra. Deslizamos em silêncio para a cozinha e deixamos a vó com seu passado congelado. Fiz café. Servi mais biscoitos. Ofereci tudo de comestível que estava à mostra e parecia combinar. Fiquei sem jeito. Absolutamente sem jeito com aquele homem encostado na porta do armário. Ele menos. Ele quieto. Ele rindo de canto e do meu constrangimento. Eu nem sei o que me deu.

Voltamos à sala e encontramos a vó recitando poemas como se fosse sarau e houvesse platéia, como se pudesse ficar de pé, como se tivesse outra vez pouco menos de 20 anos, como se Ernesto a ouvisse. Ela quis uma valsa no toca disco e pediu a Julio uma dança. O peixeiro improvisou do jeito que pôde e quando a música parou tinha uma velhinha serena adormecida no colo. Colocamos a vó na cama, lavamos a louça enquanto conversamos sobre feira, peixes, parentes, poesia e Ernesto, claro. Ele disse que precisava ir, que acordava cedo para o trabalho e que as memórias do tio eram presente para a vó, de Natal, ficariam bem ao pé da árvore. Ganhei um abraço inesperado antes de vê-lo pegar a bicicleta e sumir no escuro da rua. Agora estou aqui repisando essa noite e pensando num jeito brando de contar que fim levou Ernesto para a vó que já vai acordar.

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