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14 de janeiro de 2016

Diário de valise - 23/12/2013

Ernesto. Er-nes-to. Neto. Vô Neto. Desde que soube do namorisco de juventude da vó Benta com esse tal Ernesto que fico imaginando quais efeitos de hereditariedade isso teria em mim. Sim, porque a muquiranice e o rabugismo do meu pai não vieram da mãe dele. Contavam, na minha infância, que o vó era daqueles que escondia dinheiro em fundo falso de armário e vivia desconfiando das visitas, gente que podia fuxicar onde não era chamada e passar a mão em suas economias. Convivemos pouco, e ele comigo sempre foi um doce, coração mole, de quem só guardo boas lembranças. Poucas, mas boas. Daí a saber que marido ele foi são outros quinhentos. Todo mundo diz que meu pai tem o gênio dele. E também o formato das pernas, meio arqueadas para fora, e a calvície precoce. A gente herda cada coisa. Pelo menos não vou ficar careca.

Eu até que procurei o Ernesto, a essa altura um senhorzinho de uns setenta e muitos, mas perdi o rastro depois das informações que me deram no quartel. Fui parar num endereço que hoje é terreno público e a vizinhança não soube contar nada dos precedentes do lugar. Acho tristíssimo gente que deixa a história se perder, é coisa que me abala de verdade. Tudo bem não se acertar com a ou b, como eu com o pai, mas rusga familiar nenhuma é motivo para riscar um vínculo parental da linha do tempo. Não fosse ele, meu cabelo poderia ser crespo, meu nariz menos batatudo, essa pinta nas costas talvez não existisse. Vai ver é por isso que eu registro tanto e não só de mim, é dos outros que estão próximos também. Pode ser que no futuro eu dê em nada com coisa nenhuma, mas pelo menos fui marca. Acredito que qualquer pessoa, qualquer qualquer, merece dizer de si de alguma forma e fazer-se saber. O Ernesto esse até ontem me parecia elo perdido, o dinossauro da memória da vó Benta prestes a ser extinto quando ela se fosse.



Os últimos dias me provam que dinossauros da memória são criaturas que não se terminam, não importa o tamanho das explosões, a distância, o isolamento voluntário ou imprevisto, o desejo de lembrar ou o de esquecer: em algum momento o passado vai se materializar no meio da sala e cobrar arremate na história. Não se deixa ponto solto nem na costura, na vida menos ainda. Porque ela dá volta. Ô, se dá. No nosso caso, o dinossauro tomou forma de peixeiro da feira e sentou à mesa do jantar. Elogiou a minha sopa e foi de uma atenção admirável com a vó, pareciam amigos de longa data. Eu quieta, estudando os gestos dele, o jeito rápido de levar a colher à boca e devolvê-la ao prato para então repetir a operação. Depois aceitou o chá de cidreira e os biscoitos amanteigados, e o assunto que ele veio tratar não dizia nunca. Servi a água quente nas canecas arrependida de ter aberto a porta. Se ele fosse bandido eu seria obrigada a imobilizar o cara com a vassoura, ou golpeá-lo no peito com a faca da carne, ou. Mas ela era do bem. E queria justamente me mostrar o óbvio, juntar o dois com o dois para resultar em quatro, ajudar a mim e à vó a matar a charada. Veio nos trazer alento. E conseguiu.

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