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7 de janeiro de 2016

Diário de valise - 22/12/2013



Faz mais de um mês que acordo todos os dias com o coração na boca. Engulo o medo, levanto num salto e corro para ver como ela está, no quarto. Se rotina alguma vez foi sinônimo de monotonia pra mim, a prática dos dias tem me esfregado na cara o contrário. É adrenalina em doses cavalares, na veia, acompanhar a vó Benta. Estive bem avisada de que as coisas poderiam se tornar difíceis e que o caminho seria esse mesmo, em direção ao fim. Dela. Talvez algo em mim também se acabe quando ela for embora, não tem jeito. E não vai demorar. Quando decidi mudar para cá e ficar com ela, ser enfermeira, cuidadora e amiga de fé, além da neta direita que sempre fui, sabia do risco de botar fora a estabilidade emocional recém-adquirida, com tanto esforço e frustração e desapego. Acho que estamos indo bem.

Na madrugada ela engasgou. Com a saliva. Por sorte, consegui que se acalmasse, respirasse fundo, erguesse os braços, até serenar e voltar a dormir. Olha pra mim, vó, eu dizia até o susto passar. E ela olhou, tadinha, o tempo todo. A vó está bastante confusa, mas ainda sustenta uma gana de vida. Ela briga para ficar aqui, para não se deixar abater pela sucessão de pequenas catástrofes que sua doença produz. Não se foge disso, mas se atravessa com dignidade, ensina a mim de vez em quando, nos seus momentos de lucidez. Preciso aprender essa valentia.

Hoje não consegui. Enfeitei de novo o andador, convidei para visitar as vizinhas, propus passear de ônibus pelo centro, ver o chafariz e as pombas na praça, tentei colocar a cadeira no alpendre para que ela pelo menos visse o movimento da rua, mas nada. Nem negou. A vó passou a manhã e a tarde ali na mesma posição, os olhos perdidos no horizonte da parede descascada da sala. Foi como se apenas o corpo curvadinho dela estivesse ali. A alma não. Comeu e bebeu tudo o que ofereci, ingeriu os comprimidos. Não se mexeu quando coloquei outra coberta sobre suas pernas. Murmurou Ernesto umas três vezes e só. Que agonia. Isso me parece pior do que urro de dor, pelo menos saberia por onde começar a remediar.

Tive vontade de ligar para o pai umas quantas vezes. E eu certamente ligaria se a vó permanecesse nessa apatia até a janta. Já estava com a panela da sopa no fogo quando a campainha tocou. Abri a porta secando as mãos no pano de prato pendurado em meu ombro. Era o rapaz da banca do peixe, da feira, o quase bonito de olhos bem azuis e voz grossa, o que ela chamou de Ernesto, parado sobre o capacho. Desculpou-se pelo adiantado da hora e pediu licença para entrar, queria ver a vó e mostrar alguma coisa que trazia dentro de uma bolsinha de pano. Pensei em dizer para o cara voltar amanhã, que ela estava dormindo e tal, mas a danada da vó Benta botou para berrar lá na sala: Ernesto? É o Ernesto? Fiquei tão empolgada com a reação dela que, num impulso, convidei o moço para jantar conosco, que me respondeu com um sorriso de dentes enormes e parelhos e até que olhando bem de perto, daquela maneira, dava para mudar de ideia e considerar que, sim, era mais do que quase, era bonito o peixeiro.

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