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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Diário de valise - 21/12/2013


A lentidão nas pernas não é motivo para desistir de caminhar, né, vó? Eu pensei em dizer, mas não disse. Fiquei só olhando e pensando em maneiras de tirá-la do sofá para ver o sol comigo. Risquei a pressa do meu vocabulário e da minha rotina desde que ela ficou assim, dependente, e eu tive que me mudar para cá. A vó Benta acordou cedo, pois antes das oito fui à porta do quarto e ela já estava de olhos abertos, fixados na claridade da janela. Desconfiei que pudesse ter passado a madrugada acordada, mas quando perguntei ela fez que não com o dedo no ar. Então, não.

Escolhi um vestido colorido e fresquinho para ela vestir. Sábado, verão, alegria, praticamente Natal, a gente merecia sair. Ofereci café com leite, as bolachinhas de nata, banana em rodelas e pão integral com queijo e goiabada. Ela comeu tudo. Deixou a banana para o fim e ficou cavoucando as fatias com a pontinha do garfo. Quer que eu amasse, vozinha? Me riu banguela que sim. Amassei e joguei granola por cima. Ainda fiz aviãozinho, um para a boca de cada uma. Escovamos os dentes, borrifamos perfume no pescoço e nos punhos, nos aprontamos. Ela pediu batom. O vermelho, do fundo da gaveta. Depois a dentadura.

Seus pedidos são ordens, madame, brinquei. E atendi. Ofereci meu braço para ela se apoiar e foi aí que a vó vacilou, mudou de ideia, desistiu, resmungou e sentou, enterrada no sofá como uma figueira antiga no quintal. Popará, fiz eu, olhando ao redor à cata do andador, amigo de todos os passeios. Fiz melhor: tirei os laços vermelhos do pinheiro e colei no metal, com durex, para combinar com os beijos que ela mandaria aos amigos na rua. Vem vó, insisti. Ela relutou. Mas veio. Já havíamos feito aquele itinerário tantas vezes, tantas, e hoje nos pareceu novidade. Não sei dizer se foram os hibiscos recém-brotados, se foi o calor, se foram as crianças brincando na calçada, acho que todos os detalhes vivos emprestaram um pouco de vitalidade a nós duas. 

Comprei frutas e meio quilo de tomate gaúcho na feira. Não podia trazer muitas sacolas enquanto ela estivesse comigo, precisando do meu braço livre para afirmar o andador de vez em quando. Mas ela cismou que queria peixe, filé de linguado, para assar com alcaparras no almoço. E o feijão que já tá pronto, vó? Ela não queria saber de feijão, embestou com o peixe. A banca dos frutos do mar era quase a última da feira, mas fomos. Pedi quatro filés, por favor, já limpinhos. O rapaz que nos atendeu tinha os olhos muito azuis e uma voz grave, era quase bonito. A vó ficou parada de frente para ele, observando o jeito do moço ensacar um filé de cada vez e depois todos em um pacote único e estender a sacola e o troco para mim. Empacada feito mula, sem querer dar volta para casa. O que foi vó, eu repetia. E lá pelas cansadas ela me olha, marejada e pálida, e diz: Ernesto. Demorei a convencê-la de que aquele era o vendedor do peixe e não seu antigo namorado, que logo a confusão se desfaria nela. O rapaz sorriu. A vó não. E eu fiquei tão encafifada com aquilo que quase deixei o assado de peixe passar do ponto. Agora já é quase amanhã e isso não me sai da cabeça.

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