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24 de dezembro de 2015

Diário de valise - 20/12/2013



Eu não sei o que vai ser da vida depois. Na verdade, nem quero pensar nisso. No depois. Preciso pensar é na vida. Hoje. E não na minha, na dela, que está no fim. Deu de ter esperanças, chega de insistir numa fé em força sobrenatural que vá nos livrar de todo o mal, amém. Acreditar em impulsos divinos capazes de mudar o destino das pessoas não é ruim, é motivação, é um jeito de dar razão às tentativas. Deve até haver a tal força que governe a humanidade de cima, de baixo, de dentro para fora, por todos os lados, quem sou eu para duvidar. E o que me parece mal neste momento vai ver nem seja logo ali adiante, quando o vento mudar de direção. Sinto é que temos pouco tempo. Coisa de dias, acho. Não entendo chongas de medicina, mas conheço a minha avó pela respiração. E ela se deixou vencer hoje pela manhã, entregou os pontos, as agulhas e os novelos. Está me deixando.

Passei a tarde observando e buscando meios para fazê-la voltar atrás e mudar de ideia, resistir. Só se morre quando o cérebro e o coração pifam. E ela tinha um coração ok, apesar do cérebro dar defeito seguidamente. E ela tinha ainda o meu cérebro e o meu coração bem pertinho, de prontidão, movendo uma vontade gigante de boa saúde, tinha o meu abraço, a minha paciência, a minha obstinação. Só agora, sob a luz amarela do abajur, enquanto ela dorme, que percebi o problema. Tenho teimado tanto em fazê-la ficar comigo, viva, que invadi seus limites. Eu juro que não queria que fosse assim, mas preciso desistir, dar passos atrás, descravar a bandeira da terra e recolher o meu exército de salvação. Não depende da minha vontade ou intenção curá-la. Já são incompatíveis a minha teimosia e o respeito que devo à vó Benta. Como devo.

Decidi, somente neste caso, deixar de ser “a mulher do piolho”, a encanzinada, como ela dizia de mim. A vó merece que deixemos o barco seguir a maré. Eu tenho visto suas lutas e até agora guerreei ao seu lado, mas não vou mais. Daqui ela tem que ir sozinha. Meu lugar será a retaguarda. Não vou abrir mão de zelar pelas pequenas alegrias nas horas, tomara que dias, que nos restam juntas. Falta menos de uma semana para a nossa data comemorativa preferida, não vamos esperar o dia 25 chegar. Nosso Natal começa amanhã, no café. Quando terminar de escrever aqui vou para a cozinha bater o bolo de baunilha que ela adora, temperar o peito de peru com alecrim e separar as frutas para decorar a mesa. Nessa casa vai ter ceia natalina todo dia e se meus planos derem certo, até o Papai Noel vem nos fazer visita. 

Mais cedo vi cinco chamadas não atendidas da Lisi no meu celular. E duas mensagens. Não ouvi tocar, mas se tivesse ouvido talvez não atendesse. É impressionante como a doença da vó me tirou do meu mundo e resumiu meus conflitos sentimentais e existenciais a nada. O espaço para outros amores nos meus dias é nenhum. Todas as reservas de afeto de que disponho já tem destino: Benta. Que a vó vai embora de mim é irremediável, mas no que ainda nos sobra de convivência cabe intervenção. Quero as melhores lembranças de nós duas. E vamos ter.

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