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17 de dezembro de 2015

Diário de valise - 18/12/2013



Nosso calendário parece ficção. Nossos meses se arrastam, nossas semanas são janelas de vidros fechados no tempo, nossos dias têm mais ou menos 48 horas. Os dias sim têm mais ou menos 48, porque os dias não devem ter umas 360 horas, dos quais saio praticamente pós-graduada em morrer. Dia sim é quando ela está esperança: firme e cheia de fé. Dia não é mais do que o contrário: além de desconsolo, tem dor, tem delírio, tem raiva, tem exaustão física, emocional, mental, total e geral. Hoje foi não. Completamente não. Nenhum progresso, nenhum mísero sorriso, nadica. Não escapamos. Mal sobrevivemos. Tento me iludir de que tem jeito para ela, me esforço, nos esforçamos. A verdade é que não tem. Se fosse vela, já seria cotoco, meio dedo de pavio por queimar. Mas é velha, e era daquelas que tinha energia para dançar um baile inteiro, jogar uma noite inteira de canastra, fazer longas caminhadas com as amigas, contar piadas depois do almoço. Ela tinha uma força invejável que de repente o próprio corpo comeu, assim como tem comido seus cabelos, sua memória, seu viço.

Isso que deglute a vó Benta de dentro para fora também devora a mim, e me mastiga com mais força nos dias não. Interrompi as buscas por Ernesto. Ela quer reencontrá-lo, mas não dessa maneira, com olheiras tão profundas e tanto choro descontrolado. E, bem que eu queria, não tenho ainda o poder da autoclonagem para mandar uma de mim à procura do namorado de adolescência da vó enquanto outra eu se desdobra para limpar cozinha, banheiro, sala, quarto, colo, queixo, alma, que tudo aqui tem vômito recente. Mal arrumo aqui, ela gorfa ali. 

E eu sou náusea pura. Mas também sou amor. Sou mais amor. Sou amor todinha. E paciência. Faz dois dias que ela me chama por nomes diversos: Amélia, Maria, Polina, Silvia, Margarida, Lúcia, Inês, mulheres do seu passado. Monise, vó. Sou a Monise, insisto. Já vinha fazendo confusão há mais tempo, mas ainda havia alguma coisa nos olhos dela que me fazia crer no passageiro, no temporário, na possibilidade de restauração dos dados daquela cabeça avariada. Dessa vez sei que algo mudou e mudou de um jeito definitivo. Algum rearranjo lá dentro fez com que ela começasse a me apagar pelo que mais me refere, meu nome. Sabe que a mulher que a acompanha pela casa lhe quer bem, mas não recorda mais os motivos, ela esqueceu nossos vínculos, esqueceu da neta que fui e tenho sido. Reconhecer isso dá uma dor exatamente igual à de abrir o pulso com o estilete escolar. Primeiro vem uma dormência quente, depois um ardor de leve que vai aumentando e diminuindo como onda, não chega a ser aguda. É um latejo que não desespera porque já se sabe onde vai terminar.

Meu estilete escolar ainda é muito útil. Carrego na bolsa, sempre comigo. Acho que estilete tem o mesmo valor de grafite, de lápis de cor, de giz de cera, dessa caneta esferográfica azul com que aprisiono meus dias no papel, tudo serve para o registro. E registrar é dar um fim ao vivido. Em dias como hoje penso em usá-lo outra vez. Em nós duas. Pelo nosso bem.

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