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quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Diário de valise - 12/12/2013



Na cozinha, na sala de música, no escritório, no salão de festas? Com revólver, chave inglesa, punhal, corda? Sempre torcia pelo Coronel Mostarda usando castiçal na biblioteca. Na minha imaginação, ele usava chapéu cinza chumbo cravado na cabeça e um bigodão grosso, o botão do casaco fechava com dificuldade sobre a barriga. E falava pouco e baixo, aos resmungos, que para mim um assassino jamais poderia ser bem humorado. Coisa de criança achar que o bom e o mau seguram as pontas no cabo de guerra. Depois a vida vai e a gente percebe que todo mundo é corda e está sujeito a pender para qualquer lado, a qualquer momento, por qualquer surto. Eu mesma já quis matar e morrer. De golpe ou bem devagarinho, pingando sangue, revirando os olhos, cavoucando facas nas tripas de certas criaturas que já me tiraram do sério. Quem me vê não diz. 

E aqui estou eu, de novo, escrevendo desses passados tão distantes, produzindo provas contra mim, que depois me dão vontade de tacar esse caderno na churrasqueira. Só para poder recomeçar a viver em outras folhas pautadas. É que às vezes eu prefiro deixar essa minha fala interna vagar selvagem, para a frente e para trás dos meus dias, ao invés de cumprir a diarisse tradicional de rememorar as últimas 24 horas. Às vezes parece que cada uma dessas 24 repete a primeira e nada acontece. Contar repetições é como cair num buraco sem fundo, uma agonia que só para se eu desistir. E eu me recuso a desistir do que quer que seja. Acho bom anotar isso num papel, com letra grande fosforescente, e colar na porta da geladeira para lembrar nos momentos de caos: que eu me recuso a desistir.

Hoje faz cinco dias que encarnei Sherlock Holmes e comecei a procurar o Ernesto. Até agora nada. Nenhuma pista. Se pelo menos esse pessoal da terceira idade fosse ativo nas internets, já teria achado o ex-namorado da vó Benta numa busca rápida pelo Facebook. Mas não. No endereço que ela me deu agora existe uma pracinha e um mato alto onde uns cavalos zanzam. Nas casas ao lado ninguém sabe, ninguém viu Ernesto, são vizinhos recentes naquela zona. Pelo que entendi, a maioria dos terrenos ao redor do número 74 têm donos não-donos, são ocupação indevida. Ernesto se mandou muito antes das invasões. 

Eu não queria ter que pedir informação no quartel. Detesto forças armadas, homem de farda, disciplina militar, etc, etc, mas não me ocorre alternativa. Esse pessoal pelo menos é extremamente organizado e valoriza registros. Se Ernesto serviu ao exército, em algum lugar o nome dele e referências mínimas do soldado que foi devem constar. Que saco. Vou até o quartel amanhã, se a vó Benta estiver de boa. Amanhã é o dia que o pai vem para tomar café com ela. Vai até ser bom, que eu não tenho suportado olhar aquela papada ordinária dele balançando quando o cretino ri das rateadas que a vó dá. Não sei onde foi parar aquele amor gigante que eu tinha pelo meu pai. Taí outra coisa para procurar. No futuro. Se um dia me fizer falta.

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