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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Diário de valise - 07/12/2013


Acordei fazendo graça com a velha, cantarolando que o Arnesto nos convidou pra um samba ele mora no Brás nos fumos não encontremos ninguém. Ernesto, ela me corrigiu: Ernesto, com e. Ó, pensei, hoje é dia sim. Dia sim é de aleluias: quando ela levanta boa das ideias, situada no tempo e no espaço, consciente, falante e disposta. Dia não é de querer arrancar a folhinha do calendário com os dentes: a confusão mental persiste e a vó Benta já não sabe se é manhã, tarde ou noite, se é criança, bailarina do Faustão, soldadora do estaleiro, se sou filha ou mãe dela, ou uma testemunha de Jeová que invadiu a casa. Enfim, dias não, a maioria ultimamente, são os mais difíceis.

Preciso ver o Ernesto, falar com ele, tomar chá de limão com nacos de queijo e goiabada com ele, ai que saudade da confeitaria Guarany. Epa, epa, a memória da vó estava tinindo quando o sábado começou e eu não poderia desperdiçar a chance de ouvir essa história, que coloca um tal de Ernesto a valsar na nossa sala. Entre um ciclo e outro do tratamento, há dias em que o rosto da vó fica mais redondinho, as bochechas rosadas outra vez, os toquinhos de fios de cabelo mais espetados, crescendo com toda a força, os olhos piscando esperança. Hoje estava assim.

Ernesto foi namorado da vó Benta antes do meu avô. Escapavam das vistas dos bisos para se encontrar na confeitaria e depois passear de mãos dadas na praça. Ele, milico, ela, estudando para professorar. Pelo que entendi, o romance durou poucos meses, nem chegaram a assumir para as famílias. Ernesto sumiu por duas semanas, depois mandou uma carta de Passo Fundo, onde supostamente esteve em serviço militar contra sua vontade, e então, seis meses adiante, a vó recebeu nova carta, remetida do Uruguai, de um Ernesto fugido do país por razões vagas. Em seguida e cheia de mágoa, a vó conheceu o vô, os dois se encantaram um pelo outro e a vida seguiu o curso acostumado. Casaram, tiveram o meu pai, mais um filho ou dois (que as pessoas de antigamente perdiam muitas crianças e evitavam falar delas), trabalharam, casaram os filhos, viram netos crescerem, morreu o vô, e a vó ainda aqui, lutando por lucidez.

Franzi a testa, acho, quando perguntei se ela não tinha sido feliz com o vô. Claro que foi, muito, me garantiu. Mas andava sonhando com o Ernesto, sentindo uma falta dele e de um tempo que lhe fazia bem, queria vê-lo outra vez. Por onde começo a procurar, vó? Pela caixa das cartas. Ela já tinha falado outras vezes dessa caixa e eu não dei bola. Encontrei lindezas lá. Cartões de Natal, telegramas da Bolívia, do Canadá, de Portugal, fotografias em preto e branco, postais de Paris, papel de bombom suíço, uma pilha de cartas amarradas com fita de cetim por ordem de postagem e embrulhadas em jornal, encoberta sob inúmeras correspondências corriqueiras e inofensivas enviadas por parentes e amigos distantes. As cartas do Ernesto soterradas no fundo da caixa eram a versão de um amor que não foi e acabou virando outra coisa. A vó disse que as respondeu sempre até que pararam de chegar, há quase um ano. Onde andará Ernesto? Segundo a última carta que a vó recebeu, numa casa em um bairro distante da cidade.

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