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4 de novembro de 2015

O fim dos 30

Vai acabar. Está terminando. Em um mês e seis dias passo pros 31 e, quem anda por aqui ou pela minha vida sabe, sigo amando fazer aniversário. Mas: sinto que ando num daqueles momentos para dentro e pela primeira vez sei que é de uma forma saudável. E necessária. E bonita até.

Costumo usar o blog para experimentar a escrita literária e dividir com quem tem interesse e paciência em me ler, quase nunca para me contar, mas alguns registros deste hoje merecem grifo e é por aqui que desejo que se instalem e permaneçam. Então, desde já peço desculpas pelo autobiografismo declarado, mas honesto na medida do possível, na medida da minha ficção particular. Não vai doer, prometo.

Esse 2015 dos 30 me ensinou uma porção de coisas incríveis e me esfregou na cara outra porção considerável de absurdos do mundo, que poderiam bem não existir, mas já que estão por toda parte, a maneira de lidar com não é outra senão olhando bem fundo cada uma e deixar partir. E é por aí que eu vou.

Escolhi cinco experiências deste ano que mudaram a minha vida para registrar essa alguma coisa que acontece no meu coração:

1. O Afastamento para estudos
Em 16 de dezembro do ano passado, depois de um ano e nove meses de briga para ter um direito atendido, finalmente consegui o afastamento para estudos no meu trabalho e pude respirar aliviada e cursar o doutorado em Escrita Criativa, que já ia pelo meio. Achei que precisava estar inteira, completamente disponível para a pesquisa e a escrita de um romance tese (e achei certo), de forma que dei vários jeitos para o trabalho ficar em suspenso enquanto os estudos rolavam por aqui. Deixei o jornalismo e a docência, os trabalhos nas duas escolas, para me concentrar. 

O corpo veio, mas a cabeça não. Levei meses até me desfazer da sensação de culpa por não estar cumprindo minhas funções, apesar de toda a legalidade da situação. Depois, a sensação de desajuste, velha conhecida, voltou com todo o grito e me bagunçou. Pela lógica, eu sabia que estava exatamente no lugar que desejei e precisava, mas sentindo que não estava em lugar nenhum. Tem sido um exercício interessante e difícil refazer o quebra-cabeças do pertencimento, entre os espaços profissional e artístico. Já estava tudo certo com carreira, plano de vida, estabilidade profissional, não estava? Não. E perceber isso depois dos 30 equivale a puxar uma carreta lotada de soja pela BR392. Ainda bem que o espaço familiar ~cheio de amor~ sempre esteve aqui firme a me sacudir os ombros quando a nuvem densa ameaçava aparecer. Lidar com o imprevisto, com a mudança de rumo, com o inesperado, é da vida. Eu que não me jogue a brincar de deus que isso nunca é bom negócio. Deixa a vida seguir. Enquanto isso, foco nos escritos. 

2. A Internet
Estive enfiada na Internet mais, mais, muito mais, do que o habitual. Procurando referências, parcerias, ideias, links, bicos, projetos, luz. E obviamente me estrepei, porque a Internet este ano foi totalmente das tretas e eu não soube passar ao lado, me meti em tantas, que sinto vontade de fazer a avestruz só de lembrar. As redes sociais podem ser um lugar sensacional para espalhar a arte da gente, para conhecer pessoas do bem com ideias do bem, para a partilha, mas essa maravilha toda andou soterrada nos discursos de ódio, nas provocações descabidas, na burrice ostentação, na falta de noção e de humanidade. Eu quis me retirar tantas vezes, mas fui ficando por causa dos projetos coletivos que só acontecem porque o Facebook, por exemplo, existe, e porque as luzinhas de boa vontade que piscam vezenquando seguem me seduzindo.

No ano dos 30, a Internet me ensinou que é urgente pensar - e discutir civilizadamente - as minorias e os privilégios, especialmente o ser MULHER. E grifo mulher por várias razões: a minha questão particular de (des)localização passa por esse debate, o centro do meu trabalho criativo com a escrita correu para este ponto e não arreda pé, quando olho para os lados vejo outras mulheres precisando tanto quanto eu, ou mais, de voz na rua, e a lista não tem fim, me suporte, por favor. Contudo, para 2016 a meta é ir d e v a g a r, de preferência um passo atrás. Menos celular na mão, mais café com os amigos, ao vivo.  

3. El niño
Moro na cidade do Rio Grande, extremo sul do Rio Grande do Sul, lugar cercado por água: oceano e lagoa. E um cinza sem fim. Quando penso na cidade, é um dia nublado e de vento que me vem à cabeça, apesar dos verões e do sol lindo que às vezes faz aqui. Este ano foi de El niño e o fenômeno foi considerado o mais severo dos últimos anos. Cheguei a contar mais de dez dias seguidos de chuva. As bordas da cidade sofreram com a cheia da lagoa e as enchentes foram bem cruéis, principalmente para os agricultores das Ilhas. 

Passei muitos dias em casa, sem ver a rua, sem me molhar. Nos meus planos, essa condição seria ideal para a escrita render, os projetos evoluírem e zás. Só que: queria descobrir qual é o gatilho climático que dispara em mim a agonia. Sem sol a minha energia vital escoa junto com a água para as valetas. É impressionante. Este ano, em particular, senti que fui de um cinza constante, que meus períodos de tristeza e apatia acompanharam o clima taco a taco. Uma influência ruim, que me paralisa os processos criativos, que se demora. Mas que também me força a estudar porque isso acontece e a criar estratégias para driblar, pois mudar para uma praia do Nordeste jamais será uma opção.    

4. Marie Kondo

De tudo fica um pouco, dizem. E das leituras mais diversas que fiz este ano, fui positivamente surpreendida por um livro de autoajuda ~autoajuda, minha gente~ sobre organização. Normalmente passo reto das autoajudas, porque não tenho paciência, mas o livro da Marie Kondo sobre arrumar a casa me pegou de jeito. Eu, que no ano dos 30 estive em um relacionamento sério com a casa, prestei atenção ao método KonMari, mas principalmente às justificativas que a autora dá para defender a eficiência da coisa toda. Arrumar a casa, olhando e tocando cada objeto dela, descartando respeitosamente e guardando apenas os trecos que dão felicidade foi uma revelação. A sequência do método é bestinha, apesar muito lógica e prática. O que faz diferença mesmo é a capacidade que esse novo padrão de pensamento tem de acalmar, de fazer a gente se enxergar possível no meio das coisas e criar um ambiente acolhedor, afetivo, digno e, o principal, sem entulhos. Muito das minhas compulsões tenho tratado só assim, à base do KonMari, sem terapia, sem remédio, sem choque. Próximo passo é faxinar meu posicionamento na Internet. Vai dar certinho. Se vale uma dica de leitura, anota aí: começar o livro pelo capítulo final.   

5. Os cachorros


Sabe a chata da limpeza? Prazer, eu. Tive cachorro uma vez, na infância, no pátio e muito pouco brincava com o bicho e quando fazia ia direto lavar as mãos depois. Ainda bem que ele teve o meu irmão. Meu irmão é daquelas pessoas que cuida dos cachorros e gatos da rua e só não leva mais para casa porque a mãe não deixa. No dia das mães, o mano apareceu com uma pinscher velhinha, que estava perdida no viaduto. Ele catou, tentou achar dono, não conseguiu, achou adotante. Em agosto, a adotante entrou em contato para mostrar a surpresa: a Juju na foto com seus três filhotinhos.

A natureza realmente se encarrega do mundo. Desde maio, quando fiquei um pouquinho com a cachorrinha perdida no colo, senti vontade de ter uma assim, pequena, no apartamento (dels, cadê minha sanidade?!). Cheguei a sonhar com uma cadela que seria a minha. Passei a procurar em feira de adoções, tinha que ser de porte PP senão eu não daria conta. Até que o mano chegou com a notícia de que tinha encontrado uma cachorrinha pra mim. O que resolveria o problemão dele, que era achar adotantes para os filhotes da Juju. Resumo da ópera: fiquei com a fêmea, a Dora. E com o macho, o Nino, que não desgrudava dela. Um mês e meio depois de nascerem, os cachorrinhos vieram morar aqui em casa. Hoje fazem quatro meses. Ainda estão aprendendo o lance do xixi e cocô no lugar certo, mas nem morri. Ando com o rodo na mão e o coração aos pulos. Tudo por eles. Não pensei que fosse amar tanto os dois inquilinos. O Bruno e eu estamos nos saindo bem na cuidação dos bichinhos. Chorinhos, rabos sacudindo, lambidas, chinelos mordidos, pelos nas roupas, não conseguimos mais viver sem a felicidade que é a presença desses dois. Quem me viu, né? 

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31
Eu sempre imagino para o 10 de dezembro um festão, com toda a família e os amigos, com música boa e comidinhas, com. Nunca dá certo. O melhor que consigo é um juntamento familiar na casa da mãe (que me faz um bem danado) e, com sorte, é o que vou ter este ano também. A diferença é que não vou planejar, não. Nada. Nem fazer contagem regressiva com os amigos. Nem comemorar com sorvete com as amigas professoras do Caic. Vou deixar a vida ir. E desejar que os 31 me tragam rumo. O jardim eu já comecei. :)




3 comentários:

  1. Idade, tempo, idade, temo. Ainda assim, se anda, às vezes reta, às vezes ciranda. Pior é se sentir estanque. E 2016 Soa melhor que 2015, que dá uma travada na fala. Otimismo ;-)

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  2. Luciano, eu sempre implico com os anos pares, mas esse ímpar, o quinze, tá sendo estranho. Ainda tem um mês e pouco pra ele se superar! ;)

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