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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Diário de valise - 20/11/2013


O primeiro ciclo do tratamento já vai pelo meio. Pelo que o médico disse, entre hoje e amanhã a vó vai passar pela fase mais aguda do tratamento. Desde o almoço que ela geme demais, vomita demais, perde cabelo demais. Tento ser firme quando garanto que já vai passar e daí ela me olha com aqueles olhinhos molhados de boi no pasto, intuindo o abate, e me desmonta. Corro para o banheiro, digo que é xixi, mas na verdade choro escondida, me recomponho, lavo as mãos e o rosto e volto para perto dela, oferecendo chá de cidreira e nacos maçã. Agora ela só come maçã ralada na colher, não reclama mais que não é criança, não tenta mais cortar a fruta com as próprias mãos, vai ver nem lembra que as mãos estão ali, coladas aos braços, para finalidades assim de partir alimentos em pedaços pequenos e fáceis de ser engolidos. Essa doença é tão desgraçada que não só corrói órgãos e tecidos internos devagarinho como vai derretendo a dignidade das pessoas. É patético. Pa-té-ti-co. Faz tempo que quero usar essa palavra aqui no diário e não achava ocasião. É triste, mas no momento não há adjetivo que expresse melhor o que estamos passando.

Ontem a Lisi passou aqui, trouxe biscoitos de polvilho, um lenço azul e palavras-cruzadas para a vó. Disse que sente a minha falta, passou a mão no meu cabelo e no meu rosto, quis me beijar, era saudade represada, justificou. Virei o rosto. Virei mesmo. Evitei aquele beijo vencido, atrasado uns dois meses. Que ela tá pensando? Precisei da minha amiga tanto e tanto e só achei ausência. Então, numa noite de chuva a criatura lembra que eu ainda vivo sobre essa terra árida e decide me ver, me envolver, me chamar de sua. Se catar. A vó adorou os biscoitos, reconheceu a Lisi, foi gentil, trocou imediatamente o chapeuzinho pelo lenço. Ficou bonito. Fez realçar o tom rosado que suas bochechas enrugadinhas estavam hoje. Vai gear, pelo jeito, comentei. É um sinal, a Lisi quis saber. Era. Era sinal, sim. De que o tempo estava mudando de novo, o que, aliás, ocorre o tempo todo lá fora. Aqui dentro vamos do vento ao chuvisco, não chegamos a ensolarar. Acho que sou eu quem não consegue abrir as janelas e ser sol. 

De manhã a vó pediu para ir à feira, tinha vontade de comprar tomates. Tenho feito tudo o que posso para agradá-la, especialmente as coisas costumeiras, que me parecem prenhes de possibilidades de reação, de recuperação da memória, de alma. A passos lentos, levamos uns 45 minutos para chegar na banca dos tomates. Lá pelo sexto escolhido, a vó caiu num choro soluçante. Fiquei apavorada, sem saber como e de quê consolá-la. Que foi, vó, que foi. Ela se sacudia inteira enquanto chorava. Quando mais calma, olhou sobre meus ombros e tentou explicar: eles estão aqui. Vieram me ver. Vão levar tomates. Não demora, vão me levar também. Não teve maneira de fazê-la contar quem eram eles. Quando Lisi foi embora a vó Benta ficou quietinha por um tempo, depois me chamou para perto e me mandou cuidar bem dos meus tomates, que tomates eram afetos em forma de fruta, que a minha amiga era decente e esperta, saberia reconhecer o valor de um tomate resistente. Sempre achei-os especiais, os tomates.

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