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26 de novembro de 2015

Diário de valise - 06/12/2013


Alguém me ensinou que a gente só pode enfeitar a casa para o Natal a partir do dia 6 de dezembro. E que só se recolhe a parafernália um mês depois, em dia de Reis. Quem me disse que se fazia assim deve ter me explicado o porquê de tanto método. O caso é que esqueci. Guardei as datas marcadas em dias seis e o sentido se perdeu. Deve ser porque odeio números, cálculos, regra de três, prova real, fração, odeio. Mas amo essa época do ano e suas estrelas gigantes, renas, neve de isopor, Papai Noel, pinheiros plantados e artificiais, um pouco mais de cara de pau e andaria pela rua enrolada em pisca-pisca. Presépio não curto. Sei lá, gente fugida, parto escondido, bichos, palha, não entendo. Nem entro no assunto com as pessoas porque sempre tem uma criatura a me olhar torto, como se eu carregasse a legenda HEREGE tatuada na testa. E eu, das natalices, só quero a leveza e a alegria sem pressa.

A vó Benta não faz questão dessas tradições e deve ser por isso que entende as confusões que eu faço com as histórias bíblicas. Ela ri banguela, mas não me corrige, quando misturo Noé, Moisés e Jesus, próximos na linha do tempo. Não me julga por sentir falta dos sábados antes da Páscoa quando a gente fazia uns bonecos de meia-calça, botava o nome de algum vizinho chato, pendurava no poste, fazia gritaria, e depois tacava fogo e dava pauladas enquanto outra criança de nós puxava o judas pela rua. É com pena que ela me olha e sabe que é saudade com culpa o que me dá. É da infância, filha, do lúdico que tu tens falta, não da barbárie. Não te pune por ter reproduzido um hábito tão antigo, me consola e muda de assunto, pergunta de pinheiros.

Não conto, não divido, não comento, mas tudo isso está em mim: a ternura natalina, o querer bem e por perto as pessoas da família, os amores, e o impulso de queimar e esquartejar um ser humano, tipo o meu pai e sua arrogância. E eu releio a frase que acabei de escrever e sinto arrepios. Caramba, mas se nem a mim puder confessar o que me assombra, de que forma vou conseguir lidar com os terrores? Fico pensando em arrancar essa folha e queimar na boca do fogão, mas não, vou deixar aqui. E se virem, no futuro, terão a medida exata de mim neste hoje ardido. Que façam das impressões a meu respeito o que bem entenderem. Nunca mataria meu pai, nem a ninguém. Mas experimento frequentemente a vontade de. Será que passa o mesmo com as outras pessoas? Será que sou ruim por sentir assim? Enfim, nada disso interessa quando se tem o Natal – provavelmente o último – da vó Benta para preparar.

Nossa árvore vai ser a figueira do pátio, como quando o vô era vivo e forrava caixas de remédio ao modo de presentes para pendurar nos galhos. Preciso aprender a preparar uma ceia decente e me restam alguns dias para convencer meus pais e minhas irmãs a ficarem conosco no dia 24. Ficar eles ficam, de bom grado é que é o desafio. A vó acordou chamando um tal de Ernesto, quer vê-lo, o quer aqui na ceia. Mandou que eu procurasse na caixa das cartas o endereço dele. Pressinto uma busca digna de caça ao tesouro. O que eu não faço por ela?

2 comentários:

  1. Teu fluxo de consciência me deixa levemente musical, parece uma vista de janela para alem do meu Horizontinho. Valeu!

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    1. Volni, que legal receber a tua visita, assim, tão carinhosa! Muito obrigada! :)

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