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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Diário de valise - 05/12/2013



Ando cansada. Não de bancar a enfermeira, sem diploma e sem saber aplicar injeção. Ando cansada de empurrar os dias. Um depois do outro, como se fossem contêineres que se empilham no navio de carga para uma viagem longa. Viver é longo e dá náusea às vezes. Efeito da maré. Tenho baixa resistência para sacolejo, até aos que a água salgada suaviza. Não gosto de sentir balanço de onda. Prefiro me atirar no mar e cortar pelo meio, desde a crista. Ou é ou não é. Se for pra ficar zanzando no meio do caminho, que nem me chamem para passear. O pai costumava dizer que esse era um defeito gravíssimo meu, o de não relevar, não saber relativizar as coisas. Como se ele fosse muito tolerante. O rei da moral de cuecas, aquele cretino.

Na época, essa observação que ele fazia questão de bradar a quem quer que chegasse, como se falasse de algum título meu recém ganhado, um prêmio de raspadinha, uma carteira de motorista, uma faixa de miss, tipo assim, me doía na garganta, no estômago, pelo meio das tripas. Eu sabia tolerar. Minhas tentativas de estar perto dele eram prova indiscutível disso. Fui refinando a minha tolerância durante quase 25 anos. Para nada. Desde o dia em que mandei o pai para as cucuias, nunca mais nos recuperamos, se é que algum dia nos pertencemos, um ao outro. Se eu fosse dessas nóias espiritualistas, diria que o pai foi alguém que me manteve em cárcere privado, meu inimigo, numa outra encarnação. Mas eu não acredito, acho que foi só o destino agravado pela dificuldade de comunicação o que nos trouxe até aqui.

E o aqui é desolador. É a vó Benta, a mulher mais incrível, lúcida e amorosa que eu já conheci, enroladinha no edredom ali na cama, numa sinfonia de aiaiais. Sou eu sentada no sofá da sala escrevendo, provavelmente para mim mesma, sobre os dias e as dores e tudo o mais com o que não sei lidar. É a minha mãe morna e submissa e silenciosa de dar ódio. É o meu pai turrão, ausente e arrrgh. Ele não merece meus adjetivos. É essa chuva fininha, tocada a vento, molhando os vidros, a grama, os telhados das casas. Meu coração é umidade pura e nem esteve na rua. É o fim do caminho. É pau, é pedra, são as flores de plástico com que vão enfeitar o túmulo dela. Terrível dizer, anotar, pois significa assumir. Assumir que fizemos tudo o que podíamos, o que sabíamos e o que nosso dinheiro pôde cobrir. Só que algumas pontas ficaram aparecendo e são essas as que emergem, se destacam, e anunciam que não vão parar, apesar dos nossos esforços. Os dias são contêineres, já disse aqui, e o navio... é a doença. Vai sempre achar um mar propício para a navegação, faça sol ou ventania.

A vó disse que não vai ao cinema há mais de dez anos. Não tenho mais força com ela, senão a levaria ao cinema do balneário para assistir o que estivesse em cartaz. Fiz a sessão das sete na sala. Baixei A Cor Púrpura na internet, fiz pipoca, chá de maçã, me aconcheguei no ombro dela. E a gente chorou rios naquela parte em que a Nettie vai embora e a Celie fica. E da distância elas fazem a brincadeira das mãozinhas, “eu e você, um só coração, eu e você sempre juntas”... Eu, Celie.


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