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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Diário de valise - 03/12/2013


Mais cedo ou mais tarde acabaria acontecendo. Foi hoje que começamos a nos adaptar ao novo equipamento. Um trambolho diante das pernas dela, uma agonia em forma de bolota na minha garganta. Isso porque eu não sei como ensinar a vó Benta a caminhar com aquilo, parece que mais atravanca os passos do que auxilia a caminhada. Levamos os passeios na quadra ao limite: uma volta completa ao redor do quarteirão em duas horas, vinte e dois minutos e um tombo no final. Tenho a impressão de que a vó simplesmente esqueceu de que para evoluir no movimento era necessário erguer o pé direito, que estava para trás, e pousá-lo na frente do esquerdo, na calçada. Ela errou o ritmo, botou o pé esquerdo ainda mais para frente e caput, perdeu o equilíbrio. Esfolados no cotovelo e no quadril, tadinha.

O pai trouxe o andador no fim da tarde. Ficou para o café com broa de milho, fez perguntas a respeito da saúde de sua mãe, quis saber o que ainda havia de dinheiro para as despesas com comida, água e luz, contou que uma das manas estava com conjuntivite, a mãe na Yoga e ele cansado. Quanta novidade, #sqn. Deixou 300 pila na mesa, um beijo na testa da vó e nem um abraço em mim. Cretino, desalmado. Se fosse ele no lugar da vó eu não sei se teria esse apreço todo, não. Não trocaria o fraldão nem faria com gosto a sopa de abóbora para uma criatura que não consegue olhar na direção do meu rosto por mais de dois segundos. Bobagem. Faria todo o necessário, rachada de ressentimento, mas faria.

Mostrei para ela a armação em aço, ferro, alumínio, sei lá do que é feito, e simulei passadas. Aqui, ó vó, tem que apoiar o corpo, puxar o pé, empurrar um pouco, puxar outro pé, entendeu? Ela sacudia a cabecinha careca que sim e ria. Quer tentar? Tentou. Disso não posso reclamar. A vó não se entrega nem nos seus piores dias, aqueles de diarreia, fraqueza e náusea. Quer levantar sozinha da cama, segurar as coisas nas mãos sem deixar resvalar, ir vivendo das miudezas que dão certo. Demos a volta na mesa, uma hora e seis minutos. É que a televisão estava ligada, acho, e ela sempre presta atenção no Tarcísio Meira. Preciso ter paciência infinita. Ela precisa andar. Ao fim da maratona, não consegui decifrar se a expressão dela era de satisfação ou de conformidade. Caminharemos mais amanhã cedo. Resilientes, nós.

Fiz sopa de legumes para a janta. Depois de comermos, dei-lhe banho na bacia. É mais prático do que com a água escorrendo do chuveiro. Reparei que a cada dia conversamos menos. Por vontade dela, que parece economizar palavras. Ou, vai ver, está esquecendo que é importante seguir falando, dialogando comigo, que a acompanho o tempo todo. Vai ver pensa que eu sou uma extensão dela. Não me espantaria. Eu mesma às vezes acho que ela é uma parte minha, a indefesa, a doente. Agora a pouco ela estava com os olhos cravados no equipamento, estacionado ao lado da janela da sala, repetindo de tempos em tempo o nome da geringonça, dum jeito bem arrastado: anda dor, anda dor, anda dor. Um mantra, praticamente.

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