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sábado, 21 de novembro de 2015

A angústia do parágrafo biográfico

Escreve um poema, um continho, um artigo sobre a obra de alguém, um ensaio teórico e envia para algum lugar disposto a receber e publicar teu material. Se a exigência não veio antes virá no próximo e-mail informando do aceite: manda pra cá um parágrafo biográfico, faz favor. Com sorte não pedem uma foto de perfil.

Sinceramente, a foto é uma tortura também, mas gera menos conflito do que o tal parágrafo biográfico. É na limitação de mais ou menos dez linhas, espaço simples, times new roman 12 que eu surto. Que eu me sinto o cocozinho da Dora (é que a Dora, minha cachorra, não tem paciência de esperar o cocô sair todo e corre do banheiro dela deixando um rastro cagado de pedacinhos...), pequeno, fedido, espalhado e sem serventia a não ser ganhar o fundo da sacola do lixo. 

O que é que eu conto de relevante a meu respeito no espaço do parágrafo biográfico? Minha vontade é mandar uma foto em que apareça de pijama, de pantufas, o cabelo em cocorote bem no alto da cabeça e os cachorros agarrados em mim, auto-explicativa: eu sou isso aqui, ó. Mas se eu não colocar a formação acadêmica fica amador. Se eu colocar fica antipático. Se eu colocar só as últimas coisas que andei fazendo fica antipático também. Se eu colocasse que eu sou a minha mãe o meu pai o meu irmão e o meu namorado num almoço de domingo periga não entenderem (as pessoas se fazem de desentendidas quando a gente mostra selfies). 

No tal parágrafo não cabe o bolo de aipim que eu fiz hoje cedo e deu certo. Nem o pão de aveia e centeio que eu fiz pela primeira vez e ficou tri bom. Não cabe o meu prazer de andar do sol, o meu gosto por comer tomates de todos os tipos, meu metro e meio. Nem minhas celulites. Sei que deve constar meu nome completo e local de residência, mas dizer a cidade em que me plantei e meus sobrenomes é tão superficial. Porque eu moro no mundo e todas as mulheres e todos os homens que vivem no Alves e no Pires não aparecem em um bloco de texto espremido. Por mais que me esforce, é uma narrativa tão assim-assim que nunca vai me contar, é um arremedo do que venho me fazendo ser, uma mentirinha a antecipar a farsa que eu sou pra valer.      

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