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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Diário de valise - 25/10/2013



Dez. Dez dias. Dependendo do ponto de vista, dez dias podem ser uma piscada ou uma missa. Do galo. Engraçado que sempre que quero me referir a algo demorado me vem, imagem e sensação da infância, o exemplo da missa do galo. E eu escrevo galo, o da missa, com minúscula, já pensando em pelo menos três expressões faciais de repreensão que a professora de português da quinta série usaria comigo por causa disso. O diário é meu e que se dane: o tempo, a referência, a lembrança da censura. 

Hoje fez dez dias que vó Benta e eu entramos no mar de corpo inteiro e mãos juntas, tudo para o mar lavar, todo mal para o mar levar. Nem sou lá uma criatura de muita fé, mas naquele dia eu confiei que depois das ondas por cima e do sal secando na pele ficaríamos outras, meio purificadas, acho. Imaginei uma Iemanjá mais humana e menos estátua, flutuando sobre a água, sorrindo de faceira com a vó de visita. Uma mulher azul abrindo os braços para outra mulher azulada da vida, prometendo um abraço reconfortante, cheio de esperança e barquinhos de isopor. 

Não sei de onde tirei essa bobagem. Estou quase arrependida do passeio. Iemanjá fez coisa alguma pela vó e a minha velha ainda pegou um resfriado. Tadinha, funga, funga e me agradece por ter visto a praia, e funga e funga. Que culpa. Eu devia era ter alugado um dvd de turismo, sobre praias paradisíacas e cruzeiros, depois botar no canal da novela e pronto, estava morta a vontade. Mas tudo bem. O passeio foi o ponto alto nos últimos dez dias. Vi a Benta satisfeita, quase esquecida da doença, quase feliz. Depois fiquei enrolando, descendo e subindo, do meu lado da prancha de madeira, minha gangorra emocional. Que é assim que a vida vai, para baixo e para cima, e não te deixa de castigo lá no topo, nem um pouquinho. Mal sinto que estou em sintonia com o universo e já despenco, uma cagada atrás da outra, daí me ergo um tanto, e caio. E cansa. E não tem fim.

Ela piorou e não foi só o resfriado. Passou dois dias de cama, três internada, voltou para casa, perdeu três quilos e um certo brilho dos olhos. Não se queixa, mas sei que tem dor. Meio que desenvolveu um tique, passou a puxar o lado esquerdo do rosto. Faz parte do quadro, tentou amenizar o médico. Faz parte, completei para dentro, ir morrendo devagar e consciente da falência da máquina. Foram dias de secura, um ardido na boca do estômago que não cura, beba eu café ou leite ou água. Meu pai sugeriu que eu largasse meu emprego e ficasse à disposição da vó, tipo enfermeira. Levei quatro longos dias para tomar a minha decisão: ser a enfermeira da vó. Não porque o pai pediu, de jeito maneira, mas porque devo isso a ela, meu amor até o limite. Mas como me manter sem trabalho? O pai nem esperou que eu me desse conta do conflito ou que pedisse ajuda para resolvê-lo. Depositou na minha conta o equivalente ao meu salário e mandou um sms: “teu mês tá garantido, enfermeira”. Porco. Mas eu precisava aceitar o dinheiro. E cuidar a vó melhor do que a mim. Não faz muito pedi demissão. Subi. E já voltei a ter medo de cair.

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