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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Diário de valise - 15/10/2013



E daí que hoje era terça-feira? E daí que eu tinha três relatórios para apresentar ao meu chefe? E daí que eu faltei na consulta ao dentista? E daí que ainda falta um bom tempo para o verão? E daí? Qualquer humor que acordasse comigo seria benção perto do inferno que vivi ontem. TPM tem dessas coisas: dá e passa. Vezenquando persiste dois, três, sete, oito dias, e nesse meio tempo há espaços de refresco, em que os hormônios têm seus picos de lesmice, é quando passa. Sei que é como estar no topo da pista, prestes à queda, no carrinho da montanha-russa. Fico bem, mas sinto que posso despencar a qualquer momento.

Vó Benta me chamou para o café perto das sete da manhã. Resmunguei, óbvio, que detesto levantar cedo, mais ainda que me acordem. Mas os olhinhos piscos da vó me desmontam, não tem como se demorar em brabezas ao lado dela. Foi entre a fatia do mamão e o gole de café preto que ela desabafou: precisava ver o mar, molhar os pés, ter sol e vento no rosto. Queria se limpar dos pesos das últimas semanas. Devo ter levado uns três segundos para reparar que ver o mar também era uma urgência minha. Talvez eu morresse ali, naquela sala de jantar, se dedicasse a minha terça-feira a outra coisa que não ao mar.

Tenho sido uma pessoa que escuta seus próprios chamados, na medida do possível. Na prática, isso significa que me esforço para não passar vontade nenhuma e que eventualmente cometa algumas loucurinhas. Do bem. Todas do bem, como comprar cinco calcinhas do mesmo modelo, uma de cada cor e duma vez só, ou botar vinagre na saboneteira do escritório só para ver aquela gente murrinha desconfiada do cheiro nas mãos, assim só de bobeira. Decidi que a terça-feira, aquele céu sem nuvens, pedia uma saída do eixo. Tirei o dia para levar a vó no mar, com direito a mergulho, de maiô e tudo. Vamo, propus. Ué, vamo, ela respondeu. Deixei o trabalho para lá. Busquei o maiô tigrado que a vó tem, ajudei-a a vestir, depilei suas virilhas e axilas com gilete, espalhei o protetor solar caprichando nas dobrinhas do pescoço, ajeitei o chapéu de palha na lateral da cabeça da vó, o nó da canga e. Graças a Deus tem um caixa eletrônico ali na esquina. Saquei 200 pila da poupança, dá e sobra, calculei. Pedi o táxi, que não demorou a vir. 

Um amor de taxista. Fez preço único pelo nosso passeio, para nos carregar ida e volta. Enquanto ele cochilava no carro, eu levava a vó pela mão até a água. Porque é bom andar assim de mão. Achei que ela fosse arrepiar e desistir do banho, molhar só até as canelas, mas não. Foi entrando devagarinho, os dedos enrolados nos meus, sorriso fino de boca murcha e os olhos parados no horizonte. Eu acreditava que atravessando aquela linha reta ia parar na África. Quanto mais se vive, mais distante fica a África da gente, me disse. Relaxa, vó, que hoje o dia é de limpeza pesada, não de fugas geográficas. Pede colo à Iemanjá, brinquei. E veio a onda e nos deixamos inundar.

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