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8 de outubro de 2015

Diário de valise - 14/10/2013





Acordei como que de ressaca, dor de cabeça, náusea, uma dor no lado da barriga. Lá vem ela de novo. E a cada mês odeio mais essa sangria por baixo, por tudo o que ela representa e pelo que de fato é. Um incômodo. Uma cobrança biológica e social sem fim. Uma cadeia. Se eu pudesse, fugiria dela sem culpa. Sério. Queria um botão de liga-desliga desse inferno que são os dias que antecedem e que duram a minha menstruação. Não tem nada de justo viver bem quinze dias e querer morrer e matar nos outros quinze. É muita agonia. 

Li outro dia por aí que não se nasce mulher, torna-se, e fiquei pensando que eu talvez nunca consiga me tornar mulher de verdade nessa vida, não nesses termos panelas, vassouras, salto alto, maquiagem impecável, amamentação. Devo andar pelo dia de pico da minha TPM, pois a vontade de incendiar a casa da vizinha beira o incontrolável. Tive medo de me botar a mordidas num infeliz no ônibus, que ficou se esfregando em mim, roçando os braços peludos nas minhas costas, com esse calor, o cheiro de desodorante suor cigarro, meu Pai Eterno, porque não me deu músculos, pênis e rara oscilação hormonal? Seria tão mais simples existir.

No trabalho, o chefe que mal dá bom dia hoje resolveu gastar gentilezas e querer conversa, saber das minhas ideias e propostas para melhorar o ambiente de trabalho. Se meus olhos disparassem facas o cretino estaria preso à parede até agora, esvaindo-se em tripas. No supermercado, 468 pessoas idosas, gestantes, deficientes físicos e espertalhões de toda ordem passaram na minha frente na fila, duas pisaram no meu pé, inclusive. E choveu o tempo todo enquanto estive na rua e é muito difícil enxergar o caminho de casa com os óculos cheios de pingos, ainda mais quando se está de mãos ocupadas com sacolas pesadas e não dá para limpar as lentes. Sim, que tudo de desagradável acontece em dias de TPM e se amplifica em nível 10 estrelinha. E a vó Benta me esperava para o café com a novela das seis. Tadinha. Sou uma companhia terrível nesta segunda-feira maldita. Já tentei chá de canela, Gameline, abdominal, paracetamol, duas barras de chocolate ao leite, água, água, água e nada.

Queria ser um desenho a lápis para me apagar com borracha até os últimos fios desalinhados de cabelo. Queria um retiro espiritual. Queria uma vacina. Queria o direito a cinco dias de silêncio absoluto uma vez por mês. Queria saber explicar esse humor tóxico que me sufoca ciclo a ciclo, parece encosto, uma camada grossa de protetor solar 48 horas que não sai nem no banho quente. Queria que parassem de me pedir informação, explicação, atenção, nesses meus dias de não por dentro e por fora. Queria fazer uma fogueira alta no pátio com os pacotes de absorventes e dançar ao redor, bracinhos para cima, rezando forte ao primeiro Deus que atender o meu pedido de fim disso tudo. Queria saber me devolver a serenidade e o sorriso, porque tá complicado me ser, atravessada assim. A vó Benta entendeu o recado quando me viu na porta: trouxe chá de cidreira, abriu espaço ao seu lado no sofá para esse resto de mim. E não me exigiu sequer uma palavra.

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