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1 de outubro de 2015

Diário de valise - 13/10/2013

Meu domingo costumava ser repartido em dormir até tarde, almoçar na churrascaria do posto de gasolina com a Lisi, dirigir pela cidade até escurecer, jogando conversa no vento e tomando chimarrão e rindo e fazendo fotos nossas com o celular. Parece que isso foi há anos e não dias. A gente perde a noção de tempo quando mergulha na doença, acho. A doença é da vó Benta, mas sinto como se os coágulos estivessem alojados na minha cabeça também, igual, dolorindo, estonteando, matando a nós duas em suaves prestações. O médico recomendou que ela, a Benta, ficasse guardadinha. Passei em casa ontem e montei o kit-domingo-com-a-vó: um livro de bolso com poemas do Quintana, o pendrive com toda a discografia possível do Filipe Catto, esmalte vermelho e demais traquitanas de manicure, o vidro de doce de leite que comprei no Chuí e duas garrafinhas milagrosas do meu Keep Cooler Morango. Não faltaria assunto.

Fiz nosso café com pão e frios, frutas para ela. A maçã ralada na colher de sobremesa como se faz com bebês. A vó riu e disse que não estava tão ferrada assim, que ainda tinha condições de cravar os dentes na polpa. Morri de vergonha. Ralei a maçã para mim. Era cedo para começar, mas por dentro já tinha o itinerário completo e pulsando: o Catto cantando no som da sala enquanto a gente coloca pé e mão em dia, depois rodadas de bolacha maria com dulce de leche, e brindes à vida para finalizar. No copo da vó, água com gás, obviamente. Quintana seria nosso petit gateau, a sobremesa fina depois do rango pesado. Foi quase assim.

Mostrei as minhas preferidas e a vó disse que eu tinha bom gosto musical, que aquele guri realmente cantava bonito de deixar os pelinhos do braço arrepiados. E aí o plano enveredou para outro lado, assim que começou a tocar Flor da idade. Eu conheço essa música, disse, conheço, sim. Perguntei da onde. E ela: essa é do Chico. Fiz a minha cara de “oi?” e ela pediu para levantar da cama. Ajudei. No passo da lesma a vó foi até a cômoda, mexeu e voltou com um vinil nas mãos. Entre Foi Assim e Bem Querer estava essa. Não, pera, vó, mostra issaê. Realmente era. O Chico parece ser o cara que inventou a roda em termos de composição lá na sua época, mas nunca cantou brilhante como faz o Catto, foi a conclusão a que chegamos depois de tanto avaliar. Até o Oswaldo Montenegro entrou no papo com uma versão intermediária. Ficou cada uma com a sua preferência, uma Chico a outra Catto, meio Grêmio meio Inter... E a gente ria e se lambuzava de doce de leite na bolacha até que a discussão migrou para o nível temático da coisa, o fundo da letra, ai Deus. 



Pressenti que a quadrilha do Drummond que virou do Chico e já é do Catto, passando por Oswaldo, pediria um comentário, um posicionamento, uma confissão (que já está mais do que assinada). Sorri e disse apenas: sim. E desconversei, apurando o nosso brinde à vida. Embora a vó seja minha amiga de fé e a mais compreensiva na linha consanguínea, tem coisa que só se comenta com quem a gente divide lençol e travesseiro babado. Sei lá.

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