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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Diário de valise - 08/11/2013



Minha filha, eu preciso, ela me disse meio rouca e reticente. Não era mistério o que estava tentando fazer. Estava apenas tentando, tentando. Tentando concluir uma frase, o pensamento, um pedido. Coisa cada vez mais rara na rotina da vó. Dá uma pena enorme. Acho que seria ainda mais devastador se eu estivesse longe, acompanhando a evolução da doença por visitas breves dia sim dia também. Mas não, não estou longe, estou dentro, muito dentro, enterrada até os cabelos. Paro bem quieta e concentrada para decifrar o que, afinal de contas, ela quer que eu compreenda. E consigo. Na maioria das vezes, a gente se entende só de ver o branco do olho uma da outra. Vai me dando uma agonia reparar que ultimamente ela tem se perdido num mundo vazio, olhar parado e fixo em algum ponto que mais ninguém alcança. Estar dentro assim parece que ameniza o futuro. Ela está condenada. Eu também. Vamos levando uma hora depois da outra. 

Ontem a vó Benta atinava pedir para usar o banheiro. Amanheceu mijada e tiritando de frio. De manhã, pediu para fazer xixi quando já havia feito nas calças. Depois do almoço caiu no choro porque queria avisar da vontade de fazer cocô, mas não lembrava a palavra. Resultado: tudo no sofá. Comprei fraldas geriátricas pela primeira vez, fiz estoque. Vesti-la com as tais fraldas é como etiquetar “incapaz” pela pele. Na dela e na minha. Ela esquece aos poucos o dispensável e o essencial, não há critério para esse apagamento de vida. Eu lembro por ela e por mim, porque tenho medo de deixar algum detalhe para trás, de permitir que nos falte memória, de admitir que vou ser esquecida logo ali.

Era ouvir um disco da Maria Bethânia o que ela queria agora a pouco. O nome do álbum não saiu, nem pistas sobre sua capa ou onde estaria guardado, não enquanto ela fez força para falar. Quando relaxou, fez silêncio e respirou fundo descobriu uma alternativa. És um senhor tão bonito/ Quanto a cara do meu filho/ Tempo tempo tempo tempo/ Vou te fazer um pedido/ Tempo tempo tempo tempo, cantou a minha véia, sem perder o ritmo ou pedaço de letra. Ajudei a colocar o vinil na vitrola, erguer a agulha e pousar a ponta na ranhura certa, demos o play juntas, dedo com dedo. Queria poder aprisionar o tempo num vidro de conserva e botar essa cena para repetir de novo e de novo e de novo. Ela percebeu que a canção é um caminho de volta à lucidez e está cantando até agora, daqui ouço Essa é uma prova de fogo você vai dizer se gosta de mim. Tomara que o bom humor seja uma das últimas coisas a ser desaprendida pela vó.

Deixei a minha vida em stand by por tempo indeterminado. A energia que tenho e a que conseguir raspar do fundo dos meus pés será para ela, meu bebê da terceira idade, até o fim. Parece que sim, mas não se morre por ficar sem trabalho, sem amor, sem dinheiro e sem perspectiva. Tem muita dignidade em se deixar consumir de segunda a segunda pela companhia de um moribundo. Mo-ri-bun-do. Da, no caso. Moribunda. Secar a baba alheia ou limpar o traseiro da vó Benta pode ser tão necessário e gratificante quanto finalizar um relatório no prazo. É um jeito de ver as coisas.

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