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24 de setembro de 2015

Diário de valise - 12/10/2013



O pai é meio que um fantasma vivo na minha vida. Tá, eu sei que não dá para ser fantasma e vivo ao mesmo tempo. Aliás, nem sei se dá para ser fantasma de verdade, mas enfim, deixa eu escrever de novo para ver se me entendo e se acomodo as minhas ideias no papel: o pai tá vivo, fato. O pai mora na casa dele, longe de mim, fato também. Mas o pai está sempre aqui, ao meu redor, mesmo quando não está. E me assombra, fato ao cubo. Acabei de ler esse início de parágrafo e achei um horror. Se outra pessoa pega essa caderno vai ter certeza de que a diarista, no caso eu, era uma doida varrida com problemas de expressão. Preciso de um exemplo, que os exemplos são provas concretas de que as coisas acontecem e não são inventadas ou mentidas ou aumentadas conforme quem conta quer. 

Fácil: o pai não me deixa em paz nem quando estou no banheiro, porta trancada, vapor até por dentro dos olhos. Hoje fez três dias que a vó Benta voltou para o hospital e meus pais acharam melhor que eu descansasse, que eles mesmos se revezariam nas madrugadas. Nem discuti, mesmo sabendo que ia ficar tudo nas costas da mãe, porque não deixam homens acompanharem mulheres nos quartos compartilhados. Acho uma besteira, mas quem sou eu para questionar regra de hospital. Voltei para casa me arrastando, só pensando em banho e cama. Dormir por uma semana seria tão lindo, esquecer a bomba-relógio que a vó guarda na cabeça, o descaso da Lisi, o meu emprego furreca, o gato que só eu vejo na cozinha, etc., etc. Liguei o chuveiro e deixei a água morna me escorrer por cima, bastante, bastante, até que estalei: “tu pensas que eu sou amigado com alguém da Ceee ou da Corsan, guria?”, aquela voz. A voz do pai me cobrando explicações para sempre.

Será possível que até pagando as minhas próprias contas de luz e de água não vou conseguir tomar um banho esbanjado sem culpa? Não vou. O pai tá em todos os lugares, em cima das minhas decisões, atrás das minhas atitudes, apontando o dedo no meu nariz, reprovando as minhas escolhas tortas. Quando criança pensava que ser amigado com alguém era uma coisa sagrada, era ter um melhor amigo daqueles com quem se divide tudo, de quem não se desgruda. Com o tempo aprendi que não deixa de fazer sentido a minha definição infantil, mas a isso se juntam outras proximidades menos inocentes, um punhado de beijos, de abraços e otras cositas más, que o pai não concebe. Não aceita. Não admite. Numa de nossas últimas brigas, antes de eu decidir morar sozinha, ele quis saber “se eu ia me amigar com aquela lá”. A Lisi. Eu não ia, não sabia se ia, mas tive que dizer que sim para ver se aquele turrão se sacudia, se percebia de uma vez que eu estava indo embora sem querer, sem precisar, e me impedia de sair. Lembrar desse dia é uma bofetada até hoje. Sapatona sem-vergonha, ele disse de mim, não vou esquecer. E eu que tenho tantas vergonhas, tantas, só consegui dizer que amigo nunca é demais, que ele deveria ter algum como eu tinha, que se amigasse para ver o que era bom.

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