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17 de setembro de 2015

Diário de valise - 08/10/2013


Sonhos malucos, com jeito de reais, como há muito tempo não tinha, tive essa noite que passou. Devo estar estranhando a cama improvisada no sofá da vó Benta, sempre fui chata para essas coisas de dormir longe de casa. Levei quase um mês para me acomodar na minha queen size podre de chique logo que decidi morar sozinha. Sei lá o que me deu essa madrugada, mas sonhei com o vô Matias sentado na cadeira de embalar, fumando o cigarro de palha fedorento dele, me dizendo entre uma baforada e outra que tudo ia dar certo no final, que eu não me assustasse com o que vem pela frente, deu uma risada alta e cantou aqueles versos do Gaúcho da Fronteira que davam na propaganda da televisão, ô guria te endireita tu já tá uma moça feita para bancar a americana, até hoje incompreensíveis para mim.

Senti uma falta daquele homem divertido, que não se incomodava com a minha infância, e cheguei a dizer que saudade vô, naquela moleza de sonho, em que as palavras parecem sair da cabeça da gente e entrar na do nosso interlocutor, sem fazer som na garganta, sem mexer os lábios. Eu quis contar para ele que eu tinha virado uma pessoa decente quase adulta, que já me virava e pagava minhas contas, mas não saiu voz nem pensamento. Ele me olhou com olhos de quem já sabia e não esperava de mim outra coisa senão independência e coragem para ser livre. Quase chorei, porque eu queria sair debaixo das cobertas e dar um abração nele e eu estava meio congelada, paralisada, muito estranho, mas aí mudou a cena e de repente, não sei precisar quanto tempo passou, e era a Lisi quem eu via andando rápido por uma estrada de chão batido. Chamava, chamava aquela surda e ela nada de se virar e me ver. Sumiu no pó da areia. Depois foi um sino gigante pendendo que nem fruta da figueira da praça central, tein, tein, tein, quase arrastando no chão, barulho muito alto e a minha mão estendida tentando parar o badalo. 

Acordei com o celular despertando, sete da manhã. A vó Benta estava de pé, passando café e fazendo ovo quente para nós. Bom dia, arrisquei. Bom dia, minha querida. Levantou ótima, sem tontura nem enjoo, nenhuma dor. Que maravilha ver a vozinha tão bem. Nem parece que. Enfim, a doença tem esse outro lado, o da recuperação, o do quase esperança. E é nele que devemos ficar, vó Benta e eu. Comi bem, peguei a bolsa e fui trabalhar. Hoje andei com calma, prestando atenção aos caminhos, às pessoas se exercitando, aos cães encoleirados, à pintura renovada de alguns prédios, às pombas ao redor das lixeiras. Fazia um dia bonito. Andei como quem não quer chegar a parte alguma, só ir. De vez em quando as impressões dos sonhos voltavam e eu ficava tentando entender quais gatilhos tinham me feito experimentar aquelas situações em estado de sono tão verdadeiras, tão impressionantes. Enquanto ia, tive a sensação nítida de que alguém me acompanhava praticamente no mesmo passo. Não havia ninguém. E não sei da onde saiu aquela inhaca de cigarro palheiro se eu não fumo. Guria, te endireita, eu disse para dentro. Nessa nem a vó Benta iria acreditar.

Um comentário:

  1. Pra mim que sou do pampa o "guria te endireita, tu já ta uma moça feita..." faz todo o sentido! Curti muito essa escrita.

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