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10 de setembro de 2015

Diário de valise - 07/10/2013

Esse meu grude com a vó Benta ainda vai me fazer doer de pingar sangue. Bem que eu queria, mas não tenho poderes divinos para mantê-la viva enquanto eu também vivo. Falar disso lá em casa é chamar chuva, provocar discussão filosófica sobre a origem do universo, em que o pai invariavelmente se adona da razão. E eu não me acostumo com a alegria de ter uma casa para chamar de minha e sigo me referindo à casa dos meus pais como se ainda morasse lá. Ô, mania sem cura. Enfim, não sei se há um Deus que manipule nossos fiozinhos invisíveis de marionetes, mas gosto de pensar que, sim, existe uma força sem rosto que me ouve e só, que não me reprova, em tempo nenhum. E eu falo com a força, como falo. Hehehe.

Cumpri horário de corpo presente. A cabeça e o coração não saíram do quarto da vó hoje de manhã quando mandei minha carcaça trabalhar. Devo estar no nível dez estrelinha da agonia, pois nem almoçar consegui, logo eu, que desconto tudo no arroz e feijão. Botei, com esforço e cara de nojo, três colheradas de purê de batatas e meio copo de suco de laranja para dentro e voltei ao escritório. Sério, não fosse precisar tanto dessa grana pra manter a alegria de ter uma casa para chamar de minha já teria chutado o balde e mandado esse emprego furreca para o espaço. Não tenho vasta nem longa experiência laboral, mas desconfio que os lugares institucionais tenham o poder perverso de sufocar criatividades, de espremer expectativas que nem espinhas infeccionadas (puft, limpa a meleca com papel higiênico e esquece que um dia isso brotou aí), e de formar apertadores de parafusos em série, exércitos mudos que amam feriados santos, férias e café passado. Certeza de que vou virar um peso de papel se ficar anos lá, vou morrer lagartixa atrás da porta. Quero, não.

Deu seis e meia, peguei a minha bolsa e me toquei para a casa da vó Benta. Fiz questão de passar as noites com ela até que fique boa. Essa mulher sabe tanta coisa, tanta, mas tanta, que o mundo não vai mostrar e talvez ela não tenha mais tempo de me ensinar. Crochê, por exemplo. Bolo de cenoura, bainha nas calças, tirar a cutícula sem ferir o dedo, coque banana, por exemplo. A serenidade sem fim, por exemplo. O exemplo. É com aperto na garganta que chego no quarto dela. Alivio. As amigas fazem companhia, no Vale a pena ver de novo e no riso. Mais uma coisa para aprender: manter as amigas, nas boas e nas ruins. Falar em amigas, onde andará Lisi? Se fôssemos como antes ela estaria aqui do meu ladinho, acompanhando esses dias incertos comigo. Mas não. Não somos. Nem sei mais o que somos. E que falta me faz essa doida. 

Fiz a janta para o bonde da melhor idade agorinha. Guisado de abóbora e arroz branco, salada verde. Ninguém reclamou. Finalizamos com chá de hibiscos e amendoins torrados, todas na frente da tevê. Poxa vida, amendoim de novo, devo ter feito bico torto. Até sugeri os biscoitos amanteigados, mas fui voto vencido. Não sei que fissura é essa que elas têm nas bolinhas bordô. Saldo positivo, enfim: fechamos a noite sem falar nos nódulos ou caroços ou coágulos ou falsas impressões na cabeça da vó Benta.

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