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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Diário de valise - 06/10/2013

Relógio marca 7h32, 7h48, 8h13. Eu, rolinho primavera no edredom, viro de um lado para o outro no sofá e pisco pisco pisco: nada do sono. Nunca mais amendoim, uma ova, que eu não posso me deixar impressionar fácil assim com um exemplo. Eram os nódulos, os caroços, os coágulos, as falsas impressões – Deus queira – que tinham o tamanho de amendoins. Pareciam com, não eram amendoins na cabeça da vó Benta, foi só uma imagem mental que o doutor Olavo usou para nos explicar os detalhes do caso dela. Vou superar. Mas será que a vó vai ficar careca? Vai vomitar bastante? Vai perder a cor? Vai ter aftas? Vai desanimar e querer sumir? Será que vai aguentar um tratamento? Não é justo com nenhum ser humano atravessar essa maldição, não é compreensível. Nem o argumento de consolação do “mas já viveu muito” é aceitável. Ninguém merece, como diz a minha irmã mais nova em cada fim de frase. 

Amanhecemos conversando. De tudo um pouco: parentes falecidos, política, a saúde dela, a copa, o mau humor do meu pai, a saúde dela, viagens, trabalho, a saúde estranha dela. A vó Benta cismou de me contar da infância, da adolescência, do noivado, do casamento, do primeiro filho, dos filhos seguintes, da viuvez, das mil amigas da melhor idade, do medo de morrer. Eu só ouvi. Ouvi e concordei e devo ter sorrido muitas vezes enquanto ela detalhava até o cheiro do doce de abóbora que fazia para o café de domingo em que a sogra vinha visitar. De vez em quando a vó dizia ai, respirava mais lentamente com os olhos fechados, depois abria de novo e seguia falando. Uma tonturinha, me tranquilizava. Eu sabia que a tonturinha era só o começo de algo que poderia ser devastador para ela. Para mim. Para nós duas em medidas iguais. Remédio com chá, de quatro em quatro horas. Quero tanto que ela fique boa. Revimos o álbum paralelo do casamento dos meus pais, o que ela fez. Fico pensando: no quê aquela gente andava com a cabeça quando aceitou usar cabelos tão pavorosos. Acho que apenas a Twiggy, com seus cílios reforçados de boneca e penteado Joãozinho mais lambido ever, se salva daquela época. Pelamor.



Leveza. Leveza, a vó Benta me respondeu, quando quis saber o que era o mais importante dessa vida, em sua opinião. Aprender a deixar para trás os entulhos, a não dar peso de elefante ao que não passa de pulga, eis um exercício que realmente vale a pena, me garantiu a vó. Le-ve-za. E eu carregando mágoas e frustrações no meu caminhãozinho emocional, fazendo tudo errado, para variar. Tive vontade de tatuar essa palavra tão bonita e sonora e deslizante no meu pulso, para lembrar toda vez que me prestasse ao papelão de querer desistir de viver. Agora ela dorme (eu, não). Fundo. Quieta. E ronca aquele ronco de desenho animado que assobia quando solta e faz o barulho de porco quando puxa o ar. Como é que chama o barulho que o porco faz? Gatos miam, cães latem, pintos piam, mas e porcos? Relincham? Guincham? Sei lá, vai ver roncam, mesmo. Prestei nada de atenção a essa aula de onomatopeias. Enfim, ela ronca engraçado. E eu preciso de um dicionário de bolso.

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