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27 de agosto de 2015

Diário de valise - 05/10/2013


Nem cru, nem assado, nem salgado, nem doce, nem. É bem provável que a partir de hoje eu nunca mais coloque um grão de amendoim na boca. Nada contra, inclusive adoro rapadura e paçoquinha, deliciosas versões processadas da semente, mas sou daquelas pessoas patéticas que se impressionam com palavras num grau, que depois precisam de eras para desfazer a má impressão. Dois. Dois pequenos coágulos da dimensão de amendoim, que podem ser nódulos, que podem ser do lado negro da força, que podem ser o fim. Da vó Benta. Foi o que disse o médico no início da tarde a nós todos. Talvez não com essa carga dramática que tento descrever e que corresponde ao que senti quando o doutor ficou mostrando com aquele gesto de indicador e polegar esquerdos quase encostados um no outro, fazendo tamanho de amendoim.

Olavo, o médico, chamou meus pais, as manas, a dona Ana, amiga da vó lá do grupo da maturidade ativa que também estava no corredor, e eu para a salinha do aguardo, queria uma reunião. Estávamos esperando a visita dele para depois levar vó Benta para casa. Conforme as enfermeiras haviam previsto, a alta da vó seria logo. E até que elas acertaram. O senhor gordinho de careca lua minguante e olheiras fundas foi bem sério e seco quando explicou a situação clínica de nossa velhinha: foram muitos exames, diversos resultados satisfatórios, alguns aceitáveis e dois intrigantes e suspeitos, que careciam de confirmações. O fato é que haviam sido identificadas duas manchinhas parecidas com amendoim na cabeça da vó. Podia ser só formações de água, podia ser lesão, podia ser tumor. E defeito no aparelho, não podia?, cogitei mentalmente. A vó iria embora, mas retornaria ao hospital em alguns dias para seguir com as investigações na região do cérebro. Só de imaginar me angustio. 

O pai esperou o médico se afastar para ordenar que ninguém dali comentasse absolutamente nada com a vó. Deveríamos dizer que foi uma indisposição alimentar, uma virose, um andaço, mas em hipótese alguma mencionar amendoins. Combinei de ser companhia para a minha véia até a manhã seguinte. Na porta da vó, o pai fez mil recomendações e me exigiu votos de silêncio. No fim, o mandei se catar, que a gente era mulher e amiga e se entendia dum jeito tão bom que ele podia ficar despreocupado, fosse embora em paz. Ele sacudiu a cabeça em reprovação aos meus modos, me botou duas notas de cinquenta pila na mão e reforçou que eu fizesse segredo sobre os amendoins. Ok, prometi.

Pedi pizza e refrigerante por tele entrega, coloquei na mesa a toalha mais colorida que a vó tinha, dispus pratos, talheres e copos para duas e finalizei a produção com velas acesas no castiçal do casamento. Brindamos o regresso da vó ao lar e à nossa amizade bonita, vimos novela, matamos a saudade de comer besteira e antes de dormir a Benta me pede sobremesa, com olhos piscos de vontade. Claro, vó, que é que lhe apetece, perguntei pronta a atendê-la. “Ali, filha, embaixo, no armário, pega aquele pote da tampa azul, isso. Senta aqui, comigo”. Era para dividir amendoim torrado.

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