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quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Diário de valise - 04/10/2013



Um fiasco, mas uma fiasqueira do bem é o que tenho sido. Não é por mal que ajeito os capachos dos vizinhos, que deixo o tracinho de volume sempre em número par na televisão, que bebo goles de água enquanto conto até dez, que desentorto quadros em salas de espera de consultórios médicos e repartições públicas – ô, gente desleixada para pendurar coisas em paredes. Que custa usar um nível de alinhamento? – , que separo as roupas por cor no armário, que. Meu pai eterno, a lista não tem fim. Saquei que esses são os truques que desenvolvi para organizar a bagunça geral que me habita: se organizo por fora, elaboro os entraves por dentro e abro os caminhos.

Falar em abrir caminhos, ando rezando pelo fim desse ano danado. Ainda sinto que um bom banho de mar, de fundilhos e cabeça, agradecendo baixinho à Iemanjá, é a melhor faxina que uma pessoa nascida e criada aqui nesse país tropical abençoado por Deus pode fazer em si mesma. Parece que estou com a vida amarrada. No trabalho meu ânimo agoniza, não é nada disso o que queria para o futuro. Na família minha esperança ganhou um fio a mais, é verdade, mas ainda falta tanto para refazer uma ponte sólida entre nós... Nas finanças, credo, mais um setor em que sou desastrosa. E no amor, ai. No amor sou de rimas cafonas e batidas: flor, dor, rancor. Pavor. De viver só. A Lisi sumida é sinal de que tem rabicho novo na área. Não sei se me chateio ou me alivio com essa suspeita. Poderia ser um bom motivo para pegar meu rumo sossegada. Só que eu sou assim meio ramster e fico passeando em círculos numa gaiola que eu mesma fiz, achando que liberdade é poder caminhar para frente. Não é.

Não preciso de mais provas das minhas mil esquisitices, mas daí vem a vida e me coloca em cada situação complicada que nem sei. Meus toques, tiques, complexos e neuroses saltam ao lado de fora, ficam pendurados nas minhas grades de contenção, ouriçados que nem os macacos da praça em Dia da Criança. Morro de vergonha toda vez. Não consigo controlar toda vez. Quando dou por mim, já mostrei para todo mundo essas minhas particularidades desnecessárias.

A vó Benta continua internada, num dorme e acorda e geme que eu nunca tinha visto, e ninguém me explica a situação real dela. #chateada. Que meu pai não queira assunto comigo, tudo bem, mas essa é uma situação limite. Até um bruto como ele tem condições de abrir precedente. Para mim. E é ele quem sabe em  que pé está o caso da vó. Hoje à tarde saí tão atordoada do quarto da veia que entrei na primeira porta que me pareceu loja. Era a farmácia ao lado do hospital. Esmaltes em série, sal de frutas, lixa de unha, shampoo, sabonete líquido, hidratante, algodão, tinta de cabelo, até talco coloquei na cestinha, nada que estivesse realmente me faltando. Na fila do caixa reparei que estava acomodando cada item por ordem alfabética no balcão. Quis parar. O impulso de seguir foi mais forte do que a vontade de cessar. Percebi que riram de mim. Queria sumir. Queria curar a vó. Queria fugir para o Uruguai e não voltar mais. Sou um fiasco? Sou um fiasco! É, acho que sou, sim, um fiasco.

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