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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Diário de valise - 03/10/2013



Disseram que a vó Benta vai ter que ficar mais uns dias no hospital. Sou uma pamonha nesses assuntos de saúde frágil, minhanossassenhoradoperpétuosocorro, que me atrapalho toda. Não sei o que fazer dentro do quarto, junto com o enfermo. Nunca esqueço da vez que ofereci café com pão e doce de leite para o vô, bem avisada de que ele precisava de jejum longo por causa da cirurgia que faria à tardinha. E ele comeu de lamber os dedos no final, aquele danado! Eu até escuto o que explicam, sei perfeitamente o que está acontecendo, mas parece que não compreendo, não assimilo, não junto as pontas. Faço tudo errado: troco medicação, viro a comadre com xixi dentro, durmo quando minha tarefa é justamente vigiar o doente. Um perigo, eu.

Não disseram o porquê da necessidade de permanência da vó lá e isso está me agoniando, botando para funcionar os bichinhos que dançam zumba no meu estômago. E se for doença braba, que vai ser de mim? Tenho vontade de chorar só de pensar na possibilidade de a véia Benta me faltar. Claro que a morte uma hora chega para todo mundo, quase que meu pai se materializa aqui na minha frente, abrindo os braços e resmungando isso... mas é que, sei lá, gente amada deveria durar mais. Gente muito amada, que nem a vó, deveria ser para sempre.

Ela está dormindo agora, ronca de leve, faz um barulhinho de desenho animado, com ruído rasgado quando inspira e assobio quando solta o ar. E eu aqui botando a vida em dia no caderno de registro que por pouco não perdi. A enfermeira viu o caderno no chão e guardou perto do sofá para quando eu voltasse. Não parece ter sido mexido. Ainda tem quem respeite a privacidade alheia nesse mundo. Nota para o futuro: comprar um presente para essa moça de coração bom.

Não vale a pena recapitular esse meu dia aflito, quanto mais remexo mais me lembro da época das mantas. Período estranho e sombrio da minha vida em que me dediquei desesperadamente ao tricô, enquanto fugia do trabalho final da faculdade, e tudo o mais. Devo ter feito umas 44 mantas só entre maio e junho, produção selvagem. Fiquei craque em me refugiar nos novelos. Depois que passou, avaliando bem o momento, reparei que aquela minha artesania não passava de preocupação. Das grandes. Dei as agulhas e as lãs que sobraram para a tia Lita e desde então nunca mais uma laçada. Está me fazendo bem.

Ai, não sei o que me dá, ao invés de sono tenho é vontade de correr para casa. Meu pensamento um pouco aqui, um tanto na minha última aquisição. Nem deu tempo de desembrulhar e testar. Ficou no canto da cozinha esperando por um tempo meu. Quando chegar em casa vou estreiar a fazedora de cupcakes. Faz sete bolinhos por vez e ainda vem com o saco injetor e vários bicos para recheios. Vi que tem dez sugestões de receitas no manual, sei de um blog de sobremesas ótimo, já tenho confeitos e forminhas, e os ingredientes básicos. Sou capaz de ficar uma semana encarnando a doceira. Delícia.
                                                                                                                                                         

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