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6 de agosto de 2015

Diário de valise - 02/10/2013



Ô, quarta-feira do cão. Tem dias que prometem furacões desde as primeiras horas. Eu deveria ter ouvido os sinais e me resignado, que essa seria uma quarta-feira do cão. Mas não. Eu e essa minha mania aprendida de querer ver sempre a metade cheia do copo. Havia estilhaços de copo pelo chão da cozinha, o líquido evaporando rápido, e eu, abestada, esperando os passarinhos da Branca de Neve virem cantar na janela do apê e me ajudarem a arrumar a cama. Quarta-feira sem fim.

Acordei com o telefone insistindo em tocar. Era o pai. Tragédia, só pode, para ele me ligar. Atendi com um timbre meio Ana Carolina, alôôô, minha garganta arranha a tinta e os azulejos a essa hora, cinco e meia da manhã, aconteceu alguma coisa? Sim, mas ele não quis explicar por telefone. Avisou que seguia na ambulância com a mãe dele naquele momento, que eu corresse atrás e os encontrasse no hospital. Gelei: será que a vó Benta iria bater as sapatilhas?

Na pressa a cama ficou bagunçada, mal lavei o rosto, não penteei os cabelos, só enfiei pela cabeça o meu vestido azul de manga comprida. O casaco bege já estava enfiado na bolsa, perto da porta, era tomar o café e sair. Daí o diabo do fogão bufa, bufa, bufa e não acende chama suficiente para ferver a água. Deitei o botijão e nem fôlego ao acendedor. Botei a xícara no micro-ondas. Não fica tão bom, mas sem café nem se sai de casa. Pão com... nada. Acabou salame, presunto, patê de ervas finas, catchup, lembrei, era por isso que o supermercado de ontem não poderia ser adiado. Café bebido, o pão puro botei na bolsa para comer no caminho.

No ônibus, lotado como sempre (e eu que achava que antes das seis o movimento era razoável...), fico esticada, na ponta dos pés, para segurar na barra de apoio. Senti um vento diferente na região do meu sovaco direito. Um descosturado enorme, como é que eu não vi, que vergonha. Tive que vestir o casaco bege, com todo aquele calor que já fazia logo cedo. Enquanto não chegava, liguei para a mãe e pedi detalhes. Não me deu. Liguei pra mana e ela nem estava nesse mundo, só resmungando hein, hein, oi, oi. Desisti. No hospital alguém vai me explicar qual é o problema da véia.

Aguardei na emergência para ver o pai e a vó quando deixassem a ambulância. Esperei uns 30 minutos e já estava agoniada com a demora deles quando pedi informação à atendente. Solícita até, a recepcionista me orientou a tentar o outro hospital, pois não tinha nenhum registro da vó. Que remédio? Lá fui eu, meu furo no sovaco, meu casaco bege e minhas olheiras de panda. Vó Benta passaria também a noite em observação. Na idade dela tontura e desmaio nunca são somente pressão baixa. Cumpri o turno de trabalho com o coração apertado. Voltei para saber notícias dela depois das 19h. Estava falante e risonha, como normalmente é, mas com os olhos no fundo. Tadinha. Me mandou descansar em casa. Vim, mas meu pensamento ficou lá ao lado da maca. Junto com o diário, espero, que essa anotação eu fiz em folha solta. Para completar, perdi meu caderno de registros. Deusulivre alguém abrir. Dia do cão.

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