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23 de julho de 2015

Diário de valise - 30/09/2013



Meu pai daria um duplo twist carpado para trás finalizado com uma sambadinha digna de Daiane dos Santos se me visse agora, nesse minuto, meus dedinhos na caneta riscando o papel e esse sorrisinho abestalhado na boca. Acho que é a primeira vez que me dá esse negócio estranho, essa simpatia repentina por filhotes, especialmente os de gente. Desde que saí da casa dele que não me cobra mais namorado-casamento-netos, não cobra nem bom dia, na verdade. O que é um alívio, pois lido mal com as cobranças, principalmente as dos meus pais. Parece que a expectativa deles é fita tape (ou teipe, como se diz? Sei lá, quem irá punir os meus erros ortográficos no meu diário senão eu mesma? E eu não dou bola para essas perfumarias, desde que numa segunda lida consiga me compreender... Bem, é uma fita colada em mim com o objetivo de me impedir de) atando meus punhos e tornozelos. Sempre me imobiliza.

Mas eu estava registrando uma vontade nova que me apareceu e que eu não sei bem explicar, nem o que fazer com ela. Reparei hoje cedo, quando atravessava a praça para chegar ao escritório e vi uma menina de uns dois anos, se muito, com aquele andar cambaleante das pessoas jovens assim, um penteado de chucas nas laterais da cabeça e um vestido amarelo, experimentando passos e falando para a mãe dela que queria subir no “leião”. Muito me subiram nos leões para fotografias na infância, fui até mordida por formigas ali. Enfim, fui invadida por uma sensação de onda quente, uma ternura, uma vontade louca de cuidar de alguém pequenininho e dependente de mim. E aí veio o pavor: maternidade não é para mim, meu pai eterno.

Quando comentei com a Lisi tive que ouvir uns três minutos de risada frouxa. Ela também acha que maternidade não é para mim. Eu até meio que me ofendi. Porque, afinal, tenho todas as ferramentas para dar à luz uma vida e dar conta de um filho todo meu: sou mulher, estou em idade fértil, financeiramente independente (tá, a grana nunca está sobrando, mas daria para sustentar mais alguém), tenho espaço em casa para abrigar o bebê... Ela disse que falta o pai. Disse que eu passaria nove meses surtada com a barriga aumentando a cada dia. Disse que eu não suportaria parto normal. Ela riu. Riu do meu mais novo conflito. E eu já fazendo contas: um novo amor ou inseminação; desencanei da dieta; tanta mulher consegue parir, eu também conseguiria, e há cesarianas, e. Silenciei. Perguntei se ela tinha visto o último filme do Almodóvar, para mudar o rumo da prosa. Eu estava sendo ridícula, como de costume.

Uma vontade é apenas isso: vontade. Dá e passa. Não havia razão para esquentar a cabeça. Já tive vontade de me matar, mais de uma vez, e passou. Não sumiu sozinha, coloquei outras possibilidades no lugar: livros, cursos, compras, caminhada. Só pensar um pouco para achar algo que ocupe esse desejo de gerar: talvez seja a hora de dar vazão ao sonho de pintar que eu sempre tive, ou à fotógrafa que ainda vive em mim. Talvez deva aprender a cuidar direito das plantas até que elas parem de secar na minha janela.

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