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quinta-feira, 16 de julho de 2015

Diário de valise - 29/09/2013

Acho que uma pessoa está, de fato, dominando a arte de estar nesse mundo, seja lá com que objetivo, quando consegue tirar proveito do dia seguinte apesar da tragédia de ontem, quando consegue ir levando sem se deixar pesar toneladas. É a alma fazendo dieta de pesares. Apesar, peso, pesar, quero, não. Dormi mal demais. Primeiro demorei a pegar no sono. O barulho da tevê incomodava, o barulho sem tevê assustava, o escuro sufocava que nem água. O sono pegou por exaustão. Acordei com o corpo moído, alguns arranhões e esfolados ainda ardendo pelos cotovelos, peito e coxas. Banho. Nada que o banho não sare. Preciso.

Só ganha da água do chuveiro a água do mar em matéria de faxina. E quando abri a janela do quarto foi um sol escancarado de brilhante e quente o que encontrei. É lindo quando a vida se mostra assim, ajeitada para que a gente se ajeite, cheia de soluções simples e certeiras. É vantagem morar num lugar que tem praia ao alcance dos pés o ano inteiro. Coisa de meia hora de carro, um pouco mais de ônibus e tô lá, de molho. Quando isso acontece, de catástrofes irem se amenizando com ajustes do clima, com a presença de passarinhos, com o passar das horas, com uma música providencial vinda da casa de um vizinho, é Deus? Será que é aquele Deus que dizem olhar por nós? Queria.

Procurei o biquíni mais largo, porque aumentei na região da cintura e não estava com saco de ficar monitorando dobrinhas saltando pelos lados da calcinha nem embaixo dos braços. Cadeira de deitar, canga, toalha, chapéu, óculos, protetor solar, chinelos, guarda-sol, fones de ouvido, garrafinha d’água, revista, que uma mulher vai para praia praticamente disfarçada. Tudo pronto. Olhei de novo e achei muita coisa para carregar no ônibus. Unidunitê, e só não abri mão da canga, dos óculos e da água. O que ficou dane-se. Já antecipava o cheiro da areia. Seguia.


Ônibus é um troço feito para se esperar. Nunca virá em menos de quinze minutos, nunca. Mas era o meu dia de não esquentar a cabeça e fiz questão de nem controlar a demora no relógio. Parece que metade da cidade teve a mesma vontade que eu e estava naquele coletivo antes de mim. Calorão do caramba, essa gente colando de suor encostando em mim, ai. Mas era meu dia de não esquentar a cabeça e eu só pensava em chegar. Suportei.

Cochilei em pé, segurando no ferro perto da porta. Estranho, não tinha sono quando embarquei. Enfim, passou logo o trajeto. Desci no terminal e andei rápido em direção à praia. A cada passo via uma fatia maior de água misturada ao céu. Engraçado, mas quanto mais pressa eu tinha, mais pesadas minhas pernas pareciam. Pressão baixa agora, não. Eu quero é mar. Desconfio que protagonizei uma cena de novela das oito, daquelas em que a mocinha sofredora se liberta e ri e chora e linda esvoaça diante da multidão. Multidão havia, mas o resto acho que não pareceu bem assim. Larguei minhas coisas na areia e me atirei de cabeça, quase peixe. Alívio. Saí nova. Merecia.

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