Páginas

9 de julho de 2015

Diário de valise - 28/09/2013


Me diz por que que o céu é azul e me explica a grande fúria do mundo. Mas me explica assim, bem devagar, cantando as sílabas das palavras, pode ser que eu entenda aqui bem dentro e me acalme. Mãe. É em dias como o de hoje que eu quase imploro por um colo daqueles da infância, em que eu cabia inteira, enroladinha, sobre as tuas pernas juntas e os braços finos trançados ao meu redor. Mãe. Eu já não sei para onde ir, apesar de ter a minha casa e de, numa emergência, poder voltar para a tua por uns dias. Tá difícil. Pra caramba. Pode ser que hoje, agora, nesse minuto, seja o momento exato da emergência e talvez fosse bom não estar tão sozinha. Tu não sabes, ou sabes, o perigo que são coisas estúpidas e inofensivas como cadarço de tênis, tesoura de unha, facas de pão, emagrecedores e garrafas de Keep Cooler, álcool gel e fósforos, parapeito de janela. É em dias como hoje que essas coisas parecem atrair a minha mão, o meu pulso, os meus olhos, o meu pescoço. Mãe.

E ainda tem esse gato, que me aparece dia sim dia também. Ronrona, mia, se esgueira pelo corredor, roça a cola nos meus tornozelos, bebe o leite do pires que eu deixo perto do pé do fogão. A dona Val disse que eu me enganei, que não tem gato no prédio, só os cachorros, o vira-lata dela, os poodles do 404 e o filhote de labrador no 203, que come tudo o que vê pela frente e que qualquer um deles faria escândalo se percebesse gatos pelas escadas. Eu vi o maldito gato. Vi. Mais de uma vez, eu vi. Vi daquele meu jeito que te fazia esconder nas mangas do casaco lágrimas curtinhas quando eu contava de um homem de olhos brancos parado no corredor, de madrugada, que só aparecia para mim. Tem algo dele parado nesse gato, sabe. E ele me olha ali da porta nesse momento e eu nem tenho medo. Mãe. A que ponto cheguei, de me confortar com a presença de um gato imaginário de olhos líquidos – sim, daqui reparo bem, o bicho tem os olhos dele – depois de cruzar o inferno desse sábado, blusa rasgada, peito arranhado, lábio sangrando, nojo por tudo. Mãe.

Eu queria poder te dizer tudo isso, que eu não tenho culpa de ser dessa maneira tão diferente do que vocês desejavam, com os ódios e paixões que guardo e com a saudade absurda dos domingos de chuva em que fazíamos bolo de cenoura e cobertura de chocolate, para o pai, para as manas, para ti e para mim. Se eu tivesse garantia de que seria tranquilo sentar contigo ao redor da mesa da cozinha e contar das minhas coisas mais fundas e ardidas, de onde brotam também as mais bonitas, largaria nesta linha mesmo a minha escrita, de uma vez só, e te diria. E começaria falando do absurdo que passei mais cedo, quando voltava para casa pela Avenida Pelotas, a pé. Perdi a carona e recém havia escurecido. Era só um, magro e fedendo a suor e cachaça. Meteu a mão entre as minhas pernas por trás, me empurrou para o chão e lambeu o meu pescoço. Mãe. Eu lutei, com os saltos dos meus sapatos e com os meus dentes. Fugi. Corri o que pude. Abri a porta como pude. Tomei banho como pude. Chorei e esbravejei e até rezei, como pude. Mas parece que o meu poder nunca é suficiente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário