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quinta-feira, 2 de julho de 2015

Diário de valise - 27/09/2013

Será?

Quem se propõe a manter um diário sempre promete que vai escrever todos os dias. Começa bem, caprichando na letra, passando a limpo uma página ou outra quando se empolga na perninha do ene e faz eme onde não deve, desenha estrelinhas nas bordas da folha, cola adesivos, desmembra uma sexta-feira em partes e descreve cada pico de emoção, tintim por tintim. Aí, depois, falha a escrita antes de dormir, uma vez por cansaço, outra por preguiça, outra por esquecimento e aparecem os buracos no tempo registrado, lacunas sem voz, vida ausente. O que nasceu diário ganha status de momentário: a pessoa anota momentos que importam, para se ler no futuro e se examinar. 

Um escritor de diário vive assombrado – e seduzido – pela ideia de que alguém possa violar sua privacidade e passar os olhos por aquela quinta-feira véspera de feriado, na rave, minha nossa. Comigo não é diferente. Meu último diário teve um fim trágico na churrasqueira, mas guardei alguns apontamentos. Não tive coragem de matá-los. Só de pensar nesses fragmentos caindo nas mãos dos meus pais me corre um vento na espinha. Acho que no fundo eu gostaria que uma certa pessoa os encontrasse e, bem. 

Pulei cinco dias desde a última vez que estive aqui. Não é que tenha sido monótona a minha semana, ao contrário. Aconteceram as coisas rotineiras e algumas estranhíssimas. Corri tanto no trabalho e espiando a vó Benta, adoecida de repente, que acabei deixando isso aqui para lá. Hoje foi o terceiro dia seguido que reparo nele. É o tipo de situação que eu adoraria repartir com a vó, mas acho que não é um bom momento para deixar a velhinha impressionada. Tirando a ela, não tenho para quem contar isso, ninguém que me ouvisse, simplesmente, sem me olhar torto e suspeitando de uma esquizofrenia.

Roçou a minha panturrilha esquerda com o rabo, na quarta-feira pela manhã, quando eu atravessava o corredor do quarto para o banheiro. Olhei para baixo rápido e não havia nada. Na manhã seguinte, um ronronado perto do meu rosto me despertou em susto da soneca no sofá. Arregalei os olhos, procurei ao meu redor e nada, nenhum pelo solto nas almofadas que pudesse atestar a passagem de um felino no meu apartamento. Não tenho bicho em casa. Nunca tive. Não gosto de animais andando na minha cama nem em qualquer outro espaço meu. Deixam uma inhaca braba, mesmo quando assíduos fregueses de pet shop. Aquele gato entrou pela janela, será? Não havia outro buraco por onde passar. Mas essa semana eu não abri nem o basculante! Agora de noite ouvi miados. Sons baixinhos, inegavelmente de gato e pareciam vir da cozinha. Fui até lá pé por pé, certamente conseguiria flagrá-lo. Nem o cheiro. Meu amigo meio místico diria que esse gato é o protetor da bruxa que eu sou, como insistia em me chamar, e me aconselharia a tratá-lo com deferência. Pois, sim. Se eu pegar esse gato boto na rua na mesma hora, onde já se viu. Por via das dúvidas, vou deixar um pires com leite perto do pé do fogão. Não custa ser gentil com uma visita.

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