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30 de julho de 2015

Diário de valise - 01/10/2013



Meio neurótico isso de vira e mexe anotar as minhas impressões nesse caderno. O bom é que ele é pequeno e cabe em qualquer bolsa minha. Sempre que me ocorre um pensamento insistente, que tenho uma ideia nova, que me chateio ou alegro, dou uma escapada da vida e me jogo na próxima página. Acho que cada entrada merece um cabeçalho novo, mesmo que seja mais de uma em um dia só. Sinto que me faz bem deixar um espaço livre entre um registro e outro, algumas linhas para o texto respirar. Queria que viver também fosse assim, que desse para parar e respirar entre os sufocos cotidianos, mas não. Pelo menos não naturalmente. Se uma pessoa como eu deseja um pouco de sossego, precisa criar a ocasião. Foi o que fiz para hoje.

Entrei em contato com a agência de viagem com certa antecedência, escolhi a época no calendário, comprei o pacote, esperei e quando vi, plim: já estava aqui, na versão mais elaborada do paraíso na Terra. Água cristalina, pessoas bonitas, sombra, piña colada e nenhum relógio no meu pulso, o que mais poderia querer? Se meus pais me vissem nessa mordomia... Teriam inveja, claro. Diriam que eu tinha mais era que botar serviço no lombo e cumprir expediente de segunda a sábado, como gente decente. Afe, que só de pensar no olhar de desagrado reviro os olhos. Cadê meus óculos de sol? Agora, sim, visual de turista completo. Quando cansar dessa areia, dessa visão privilegiada, desse calorzinho abençoado na minha pele, volto ao hotel e me apronto para a noitada. Vi no panfleto que me deram que vai ter lual e já fiquei empolgada com a promessa de novidade à luz das tochas. Pena Lisi não estar por perto.

Ai, detesto quando erro a letra e tenho que remendar a escrita no papel. Fica um registro feio, desleixado. Mas também não passo a limpo. Meus dias acabam cheios de poréns nas bordas também. Acho marginália um charme. No futuro, quando me reler, ou me lerem pela primeira vez, a descoberta será uma Monise toda trabalhada na palavra, reflexiva, mais madura ao final dos domingos e esperançosa às sextas. Que bobagem! Eu deveria era estar de molho, com meus oito quilos a menos e meu biquíni fio dental à mostra, desfilando por entre esteiras e cadeiras de praia ocupadas por esses semideuses caribenhos. Hum...

Não, peraí. Quem me dera ser melhor na vida real do que na invenção. Sempre tem um telefone tocando, um chefe do outro lado da linha, a me apurar e atirar pedras no meu devaneio sadio. Não suporto mais esse relatório interminável. Para conseguir dar conta das quatorze páginas até a hora do almoço só assim, mesmo, escapando de meia em meia hora e fuxicando sites de viagem, guardando referências de planos no diário, onde ninguém me censura. Caribe que me aguarde. Logo, logo chego lá.

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