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terça-feira, 28 de julho de 2015

De solas e asas



Eu acreditava na sola gasta dos meus sapatos. Podia jurar que nelas moravam um pedaço de coragem e um tanto de memória. Eras passando e passando, tenho me dado conta de que a base inferior dos calçados, a que toca o chão, a que faz corpo a corpo com as estradas, não são nada além de matéria plástica ou emborrachada ou lascas de madeira, fingidoras, enfim. Solas de sapato simulam, fazem de conta que vivem, que sentem, que querem o contato. De fato fazem contato, mas nada fica retido nessa superfície avessa. Nada. As solas entram e saem de umidades e claridades e asfaltos e gramas verdes sem considerar as marcas. As pessoas é que têm o mau hábito de imaginar que experiências deixaram essa ou aquela cicatriz na parte de baixo do sapato, numa vontade neurótica de tomar as histórias das solas para si. Porque gente tem uma carência incurável de drama para contar. Tem, sim.

Eu, nos últimos dias, tenho segurado com força o impulso de comprar sapatos novos. Já desocupei boa parte do armário. Doei vários pares que tinha desde, sei lá, 12 anos? Desde que meus pés pararam de crescer e passei a acumular calçado. Nunca fui de dar cabo em tênis pelo uso. Meus pares duram uma eternidade. Não furam, não rasgam, não descosturam... então, ensaco tudo e passo adiante.

Triste isso, não? Dos sapatos não se terminarem... Parece que não andei muito. Que não vivi nem para pagar o café na lancheria, que dirá um jantar em boa companhia. Essa constatação quase me faz chorar. Me dá trabalho deixar lágrimas do lado de dentro, eu que não me importo em liberar pranto. Tem muita gente olhando. Depois me pediriam tantas explicações... Não estou a fim de. Agarrei. Segurei as duas bandidas gotinhas.

Quem está aí? Quem é esse homem? Já contei que implico com gente velha? Implico. Sempre impliquei, minha mãe disse, desde bebê. Mas quem é esse velho e o que ele quer comigo? Fica abanando para mim ali da janela. O vidro está fechado, ainda bem. Estou no segundo andar, como ele consegue estar ali? Um pedreiro em andaime? Mas vestindo terno e gravata borboleta? Veste isso sim, não me enganaria tanto. Sou boa em reparar detalhes. Quem ainda usa isso? Gravata borboleta…

Eu falava em solas de sapato e agora me perdi. Quero recuperar o raciocínio e... o velho ainda está ali. Abanando e rindo um sorriso de gengiva vermelha. Desisto. Vou até a janela ouvir o que ele tem a dizer. Estou a dois passos da janela. Fui descalça. Irônico não ter solas para testemunhar um momento desses tão bizarro. No tempo que levei olhando para os meus pés o raio do velho sumiu da janela, será que caiu, pensei, imediatamente compadecida do coitado.

Corri, apertei o trinco e abri. Entrou um vento quase frio. Botei a cabeça para fora da janela, era alto aqui do segundo andar, e nada dele no chão. Não caiu. Procurei, obviamente, de um lado e de outro e nada. Ele estava no alto. O velho gargalhou para mim (ou de mim?) e saiu, assim, voando. Inacreditável. Nenhum sinal de asas ou de cabo que o suspendesse. Era voo mesmo, desafiando a minha fé e o meu bom senso.

Deixou um recado, dentro de um sapato furado junto com uma única e tímida margarida, no parapeito da janela. Torci o nariz para o sapato. Ando de bronca com eles, já comentei. Meti a mão e tirei o papel. Dizia isso, em letras cursivas: 

Não importam os sapatos, nem as solas. O que reveste os pés não te fará voar. As lembranças são preciosas demais para habitar lugar insalubre. Abraça as tuas lembranças com a palma das mãos, com cuidado, e aquece-as no bolso da camisa, se precisas tanto de representações. Garanto: todas as recordações já estavam em ti antes. Bem antes de receberes o teu sonoro nome. Elas, sim, te dão o poder do voo.

Um abraço do vô O.

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