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18 de julho de 2015

Chão de colchão



Eu fui criança no final dos 80. Meu irmão veio mais atrás, em 89, e ali nos primeiros anos dos 90 nós dois éramos grudados e furiosos, duas criaturas encharcadas de amor e ciúme e implicância um com o outro, e acredito que minhas lembranças mais claras dessa vida sejam de lá. Hoje, morando em uma casa onde ele não mora, nem meus pais, seguido me pego rindo dos flashes que me voltam. Essa semana aconteceu bastante: teve sonho com ele pequeno se acabando de chorar, o cabelo cortado cogumelo, os fios bem lisos colados na testa, acordei aflita e preocupada. Liguei. Ele tava ótimo. É uma música, uma comida, uma roupa dobrada no fundo do armário, os patins que ganhei pelo dia dos namorados, qualquer coisinha que me joga para trás me faz cruzar com o meu irmão e ah.

Quando caiu Muro de Berlin ele tinha meses e eu tinha crises existenciais por não saber lidar com aquele outro que monopolizava toda atenção da casa, virei o demônio de cabelos pretos, compridos e franjinha (desculpa, pai e mãe). Nós vimos o Jornal Nacional exibir matérias com imagens verdes e as pessoas que apareciam tinham olhos com íris brancas, usavam capacetes e carregavam armas enormes. Era cobertura da Guerra do Golfo, depois cortava para Pedro Bial, Ernesto Paglia, Pedro Bial, imagens verdes. Mais adiante, todo dia a televisão falava em Pablo Escobar, um blã-blã difícil de dizer, e um tal cartel de Medellín. Ontem, no meio da faxina aqui na sala, sei lá por que associação inesperada, ouvi meu irmão criança e a lembrança se desenhou na sequência: a gente de pijama, na cama dos meus pais, e o guri desfilando sobre as cobertas e o colchão, cantando "cartel de medelem, cartel de medelem, cartel de medelem", com coreografia própria à la minhoca engasgada, eu torta de rir, entrando na cantoria e na dança. Se foi assim mesmo que aconteceu, nunca vou ter certeza. Que memória é essa coisa só nossa que muda e conta o que a gente quer ouvir. E avisa: ando é com saudade.  


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