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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Diário de valise - 22/09/2013

Fim de semana as pessoas comuns reservam para passear, encontrar a família e descansar. Pois é. Da tríade “vidinha perfeita” eu mal consigo dar conta de uma parte. Se tentar juntar as três pontas, em meia hora estou arrependida de ter insistido na fórmula. Acordei cedo e fiquei pensando em como aproveitar o domingo, com um sol escandaloso lá fora, alguma saudade da casa antiga e nenhum real na carteira, faltando mais de uma semana ainda para virar o mês.

Tem uma tripa de coisas pendentes para fazer, uma lista enorme colada na porta da geladeira. Não esqueci nada: o artigo da pós, os três relatórios para a firma, a feira, o supermercado, as roupas para lavar-passar-guardar, a vó Benta, as minhas unhas pedindo socorro, etc., tédio. Só não estava a fim de resolver pepinos hoje. E até que fica bem aquele papel amarelo com letras verdes sobre o fundo branco, boiando na cozinha, uma bandeirinha, um pedido de atenção. Vai ficar lá por mais uns dias, que hoje resolvi deixar a vida ir por conta própria.

Fiz o café da manhã com todas as frutas e sobras que havia por aqui. Pão com banana é uma ótima pedida, descobri. É jogar um tantinho de canela em pó lá dentro para criar um clima meio francês. Pulei o almoço assistindo programas de culinária e de decoração na tevê. O sol me chamando, mas cadê vontade de sair? Olhei as janelas escancaradas, cortinas amarradas nas laterais, e achei absurda a quantidade de poeira e insetos acumulada. Que porca, diria a minha mãe. Como foi que deixei ficar nesse estado lamentável de sujeira? As portas estavam na mesma sintonia. E os rodapés. Como é que pode isso, cadê meu pincel e a minha escovinha?

Pincéis e escovinha: equipamento indispensável para uma boa faxina.

E é assim que se (perde) aproveita um domingo aqui em casa: limpando, arrumando, organizando, mudando roupa de cama, reposicionando móveis, desligando o computador, não atendendo telefone, morrendo pro mundo lá fora. E é assim que se foge do dia seguinte, depois de haver mergulhado em passado e de abrir as portas da cabeça e do coração para o retorno de mil grilos antigos e saltitantes. E é assim que se arruma uma razão para não passear com a Lisi à tardinha, não participar do churrasco com meus pais e irmãs, e não dar sossego ao corpo e à mente. E é assim, exatamente dessa forma, que se cultivam culpas e vergonhas. Até as que não têm razão de ser.

Meu apartamento é pequeno e costumo trazê-lo asseado, mas às vezes uma faxina minuciosa é necessária. Urgente. Não dá para tocar a rotina com aqueles pontinhos de mofo começando atrás do sofá. E a manchinha de creme dental azul no rejunte do azulejo do banheiro bem atrás da pia? Terrível. Agoniante. Não sei como foi parar lá, mas sua retirada me exigiu malabarismo, esfrega-esfrega e alvejante. Saiu, finalmente, para minha paz. Já havia escurecido quando encerrei as limpezas, cozinhei feijão e separei em potes para a semana, e tomei um banho demorado. Acho importante registrar que hoje me cuidei, que não sofri com pensamentos vadios, que produzi. Fiz o melhor que pude deste dia: descansei a alma, do meu modo.

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