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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Diário de valise - 21/09/2013



Tão estranho acordar com ela na minha cama outra vez. Faz tanto tempo que resolvemos ser apenas ótimas amigas que eu tinha parado de pensar nela como alguém para quem daria mais do que meus melhores afetos. Sim, tenho dedicado à Lisi minha amizade honesta, apesar de preferir sumir por uns tempos sem dividir meus porquês. Tenho cuidado daquele amor antigo e surrado que permaneceu aqui depois de concordarmos que há muito mundo para provarmos antes de colocar nossas escovas de dente a dormir no mesmo copo na pia do banheiro, isso se. Enfim. Foi esquisitíssimo.

Ela levantou primeiro e já vestiu a roupa de ontem, lavou o rosto e voltou para o quarto falando sem parar, que tinha reunião pedagógica na escola, que os alunos andavam impossíveis, que ainda juntaria coragem para mandar tudo para o espaço e virar tradutora de poesia do português ao inglês e vice-versa, enquanto delineava os olhos com traços pretos bem finos. Tinha pressa. Ou fingia ter para ir logo embora. Era como se eu fosse outra pessoa ali debaixo da colcha, alguém saído de um bar para amor ocasional, com mínima história compartilhada e alguma afinidade para cama, mesa e banho. Banhos separados, uma de cada vez no chuveiro.

Senti um misto de vergonha e assombro e saudade de uma época que já deu o que tinha que dar, acho. Toma café comigo, perguntei torcendo por uma negativa. Não dá tempo, ela me disse, por causa da tal reunião na escola. Não sei se era verdade esse compromisso da Lisi, mas achei bom ficar sozinha, para tentar acomodar as sensações e os pensamentos no corpo, nessa minha casa bagunçada. Que eu jamais deixei de amar essa guria é óbvio, mas a dimensão do meu apreço por essa louca varrida mudou, se estendeu e afinou, parece. As vezes suspeito que confundo amor com gratidão. Foi por ela, com o apoio dela, que contrariei as expectativas da minha família e peguei a vida truncada que eu tinha na palma da mão, desfiz nós cegos, afrouxei amarras, sobrevivi.

Decepcionar pai e mãe, gente amada dum jeito sem descrição possível, é como cavar o peito com faca de pão, que não é de uma apunhalada que se destoa do esperado. É aos pouquinhos, esfregando nas fuças deles as diferenças, as divergências, os limites. Até hoje me flagro com frios na barriga quando penso ou digo algo que eles não aprovariam. Quase vejo os olhos da minha mãe se arregalando e a reprovação nos lábios contraídos de mudez do meu pai. Sei que não tem nada de errado em me ser, que não é crime compreendê-los nem esperar que me queiram assim, dessa maneira, mas ainda acontece de esperar que nossa convivência volte a ser leve e simples, de infância.

O dia de hoje ficou congelado lá pelas oito da manhã quando a Lisi bateu a porta do meu apartamento. Fiz café com torradas, cuidei de lavar a roupa, aspirei os tapetes, tirei o pó, preparei o almoço, comi assistindo o noticiário na tevê, vesti roupas confortáveis e azuis, fui para o trabalho, voltei e fiquei aqui, remoendo a madrugada passada, repetindo mentalmente os gestos da minha amiga diante do espelho, prevendo os rostos dos meus pais. Quem ou o que eu queria de volta, afinal?

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