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quinta-feira, 11 de junho de 2015

Diário de valise - 20/09/2013

Deixo misturar. :)

Gosto de pensar que posso amar a quem bem entender, que posso expressar e experimentar afetos como achar melhor, como for capaz, como vier e do jeito que der. Ter esse princípio comigo é reconfortante e libertador, mas sustentá-lo publicamente há muito deixou de ser uma necessidade para mim, embora as vezes sofra de recaídas. Se houvesse compreendido que esse é um posicionamento íntimo - não secreto - talvez tivesse morado mais tempo na casa dos meus pais. Mas eu vivia com aquela urgência de bradar minhas preferências e de exigir que me fosse respeitado o direito de misturar vermelho e amarelo em terra monocor. Só doí. As pessoas mais próximas me tomaram por combativa, comunista, feminista, etc., e eu nem sabia direito o que cada etiqueta dessas queria dizer. Agora eu sei. E sei também que estavam erradas a meu respeito. Entenderam tudo atravessado. Por incrível que pareça, no meio da multidão de mamutes, a vó Benta segue sendo a pessoa mais aberta e lúcida que eu conheço.

Ando numa fase diferente: por fora é calmaria, brisa, mansidão, e por dentro gritaria, turbulência, vendaval. Uma rave interior, praticamente. Tudo chacoalha debaixo de batidão eletrônico esperando amanhecer, mas é sem pressa e sem censura, cabelo suado colado no rosto. Estar num clima interior assim me alivia e também me põe em alerta. Preciso ser tolerante comigo, mas implacável com tudo o que cheirar a ameaça. Hoje saí com R. para beber. Depois de mais de um mês de sumiço ele reapareceu, cheio de sorrisos e promessas, querendo reaver sei lá o quê, que eu não devolveria. Fui. Precisava saber qual era a dele, afinal. E sair dessa história por cima, de salto alto e batom vermelho. O tipo me larga sem mais nem menos, desaparece justo quando o lance engrenava, não me dá sequer meia explicação e agora surge assim, como se voltasse do banheiro, de cara barbeada e perfume reforçado, sobrando carinho e volume nas calças. Besta.

Tá, eu cogitei aproveitar a oferta antes de despejar os espinhos que eu tinha atravessados na garganta, mas enquanto ele falava do quão exaustivo era o trabalho de chefia na construção da plataforma, do desempenho dos pneus do tipo x que ele queria comprar para o carro zero, da falta que tinha sentido das minhas coxas enroscadas nele e blá-blá-blá, eu fui lembrando o exercício de autoestima que fiz para assimilar o descaso dele comigo naquele período de fragilidade (que todo mundo tem logo que começa um relacionamento) em que estive atirada, de calcinha estômago e coração, nas falsas vontades dele. E reparei que R. nem parecia tanto assim com o Malvino Salvador, e percebi que o sotaque chiado, principalmente quando se referia a mim por “goishhhtosa”, me irritava tremendamente, e odiei o cheiro de cerveja que vinha em nuvem saindo daquela boca já sem nenhuma graça. E ri de mim por me deixar seduzir com aquele metro e oitenta de pele bronzeada e braços fortes. E agradeci o papo e paguei a conta e pedi, gentilmente, que não me procurasse mais, eu estava noutra, bem feliz. Terminei o dia com a Lisi aqui, pertinho, como nos velhos tempos.

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