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4 de junho de 2015

Diário de valise - 19/09/2013



Que eu andei com o diabo no corpo hoje, acho. Atacada. Imagino que a vida de uma criatura da minha espécie seja parecida com um balão de aniversário – um balão surpresa, que é beeeem grande – no processo de arrumação e decorrer da festa. No começo é um pedaço mole e colorido de borracha, pura possibilidade. Daí, o responsável pela organização do evento ou alguém a mando dele pega a tal borracha em estado de futuro murcho, sacode, estica, ri e se acha ridículo naquela tarefa divertida e nostálgica, puxa um monte de ar do mundo, gruda a boca na abertura do balão e joga lá dentro vento, cuspe, infância reprimida, tudo, para junto dos cacarecos que habitam fundos de balões assim, vai soprando até que aquilo ameace rebentar, então aperta firme a porção de borracha que dá passagem ao ar, enrola nos dedos médio e indicador e dá um nó. Pronto. Era uma vez a magia do porvir. Não demora, chegam crianças ávidas pelo conteúdo inútil do interior do balão, famintas pela surpresa, um, dois, três, bum. As tripas do balão pelo piso.

E todo mundo fica contente com o estouro. Será que essa gente que me cobra posturas e quereres deseja somente isso de mim? Aposto as unhas dos pés – principalmente a encravada do dedão – que torcem pela minha explosão. É um exercício tremendo e diário de autocontrole, de comedimento, de aceitação dos meus limites, de convencimento, mesmo, manter colado nos beiços esse sorriso de “que bom conviver com vocês”, forjando uma satisfação que ainda não tenho. Parecem cientes de que sou balão de péssima qualidade, de baixa resistência, que por bem pouco atiro as minhas surpresas por aí, não precisa nem de ocasião especial. Gostam de me enfiar coisas goela abaixo, enquanto repetem que devo ser assim-assado, para os homens, para o mercado, para o chefe, para a moda, para a família, para os prazos. Parem. Sabem me inflar com preocupações e expectativas que supõem serem minhas, mas não são. Não são. E desse jeito roubam meu tempo, minha saúde, minhas vontades, minha vida, a pretexto de um cuidado disfarçado de controle.

O que há de errado em saber-se vagamente? Amar raras gentes é problema? Evitar multidões é sinal de caráter inferior? Guardar a fala de conversas enfadonhas e não desperdiçar o riso com piada sem graça me faz menos digna desse mundo? Queria entender porque não me deixam voar. Preferem enrolar meu pescoço entre os dedos indicador e médio, me dar nó, me pendurar no teto, me cutucar com isqueiro aceso até o insuportável. Se minha pele de borracha romper, dirão que o céu sempre esteve aí, que os ventos são para todos, que não há amarras me impedindo de ir. Irão negar que colocam todos os seus olhos para fora de suas caras e me acusarão de ingratidão e terão mágoas profundas de mim. Voltarão às suas rotinas, jurando me deixar em paz, à míngua, sozinha, “aguentando as consequências”. Não entenderão nada, na-da. Por ora fico por aqui, que tá na hora da academia, conforme prometi à Lisi. Depois tenho médico, que a mãe marcou. Antes de dormir, revisar aqueles relatórios do Dr. Leo. Afe.

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