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quinta-feira, 28 de maio de 2015

Diário de valise - 18/09/2013

A vizinha do 101 brigou comigo hoje. Se fosse a do 404 eu teria dito meia dúzia de palavrões e saído do prédio que nem cavalo, cagando e andando. Mas a dona Valquíria? Poxa, vida. Ela me conhece desde a barriga da mãe, é amigona da vó Benta há séculos, sempre me tratou direito, pouco se intrometendo na minha rotina de proprietária do meu nariz desde que vim morar aqui. Jamais me passou pela cabeça viver uma cena daquelas, digna de pegadinha em programa de humor chinelão de canal aberto. Já é amanhã e ainda estou arrasada, moída de vergonha, fazendo cálculos e refazendo mentalmente minhas atitudes para tentar achar onde foi que eu atravanquei a vida da mulher, porque não é possível que a fúria dela, toda, seja só por causa de.

Se bem que aquela velha nunca me pareceu muito santa, muito certa do tino. Sei lá, vai ver é Alzheimer. Coitada. Se for doença, mesmo, é melhor dar uma força, uma olhadinha neles, não custa demonstrar interesse. Só porque num mísero dia nesses 25 anos a pessoa me destratou não é o caso para riscá-la da minha lista de bem quistos. Vou lá. Vou levar um chá de erva cidreira novinha que a vó me trouxe, e um pedaço do bolo de aipim que fiz no microondas e – aleluia – deu certo. Não dói pedir desculpas outra vez por aquela bobagem. Se não nem vou conseguir dormir, encafifada. Vou lá ou não vou? Vou.

Fui. E agora eu me pergunto pra quê, meu Deus. Ela agradeceu a delicadeza e o seu Renato curtiu o meu bolo, pelo jeito. Se atracou no pedaço com a mão mesmo. Deve ser o cansaço, Monise, me disse a dona Val, meio que se explicando pela reação exagerada de mais cedo, que eu não levasse a mal. Mas também, o que tu tens que tirar o meu capacho do lugar onde eu deixo? Então não sabes que diariamente, antes do almoço, eu tenho que levar o Renato na fisioterapia? A cadeira de rodas tranca ali, ali, bem ali, no capacho, toda vez que vou passar com o meu velho. Eu andava louca da vida com o sem vergonha que me mudava o capacho de lugar e hoje eu te peguei na caixinha! Eu vi que eras tu quem botava ele colado na porta. A troco, minha filha? – A dona Val queria saber. E eu também.

Eu não tinha reparado que fazia isso. Tá bem, eu tinha. Sei que sempre faço, quando saio para o trabalho de manhã vou arrumando os capachos nas portas dos vizinhos. É que me dá uma agonia ver os tapetinhos tortos, distantes das entradas, descentralizados dos marcos ou com as beiradas dobradas, um aperto na garganta que só alivia quando empurro com a ponta do pé cada um para os seus devidos lugares. Sem isso saio de casa com uma sensação estranhíssima, como a de estar longe e não lembrar se desliguei uma boca do fogão. É terrível e mais forte do que eu, mas nunca assumiria isso em público, nem para a dona Val. Prometi que ia parar, mas é óbvio que não vou poder cumprir. Não dá. Estava no terceiro degrau, voltando ao meu apê, e ouvi a velha esbravejar atrás do olho mágico: a safada tá debochando de mim! Olhei para trás e eu tinha feito de novo.



Juro que vou me esforçar. Mas pera, a foto tá torta. Ai, dels.

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