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21 de maio de 2015

Diário de valise - 16/09/2013

A Lisi é uma danada, mesmo. Não era ainda nem dez da manhã e ela quase me botou a porta da frente abaixo. Batia, tocava a campainha e me gritava, tudo ao mesmo tempo. Acordei atordoada, escabelada e sem rumo, como quem experimenta um vendaval e aparece na televisão contando que perdeu tudo no vento e na chuva, documentos, cama, sofá, geladeira, até o cachorro. Entrou na minha casa carregando sacolas do supermercado e da nossa boutique preferida e desatou a falar. Que tinha encontrado os meus pais na feira de domingo e já sabia do meu feito com Keep Cooler, remédios para emagrecer, estranho invasor, papa e polícia, que estava furiosa comigo porque eu não atendia as ligações dela, não retornava as mensagens, não reagia, que eu estava sendo egoísta e infantil sumindo do mundo daquela maneira, evitando quem se preocupava comigo, que se o problema era minha gordura localizada, mal parada nos quadris, daríamos um jeito no meu look deprê em dois toques.

Despejada a caçamba de ânimo na minha cabeça, a Lisi achou que só bastava me colocar no chuveiro, me levar ao cabeleireiro e colar o novo cardápio à base de suco de laranja e mamão sem açúcar na porta do freezer para me resgatar do lodo particular. Eu tinha criado jeitos de sair sozinha do poço e ela nem percebeu. Estava voltando para mim aos poucos e ela, cheia de boa intenção, foi mais uma a me atropelar, decretando regras, querendo me governar. Cada intervenção assim é um cansaço sem medida, dá uma vontade de desistir de tudo e virar eremita numa caverna remota do velho mundo. Sorte é que eu gosto demais da minha amiga e entendi o que ela queria fazer, onde queria chegar, que necessidade tinha de me sarar, e dessa vez não protestei. Ri para ela, que gesticulava no meio da minha sala, e disse, tá bem, que saudade de ti, por onde a gente começa a se divertir?

Não sei se acho isso divertido... 
Começamos com a dieta e a nova rotina de exercícios. Água, grelhados, saladas cruas e musculação três vezes na semana. Minha matrícula já estava feita, primeira aula no fim do dia, ai de mim se faltasse. De dentro da sacola de papel saíram roupas flexíveis e coloridas para eu usar na academia, duas blusas estampadas e um vestido azul, cara da estação, figurinos para cinema, barzinho e balada, assim nessa ordem, quinta, sexta e sábado. Embarquei no plano, pedi desculpas por não ter ligado de volta é que eu. Bem, ela entendia e relevava, tanto que estava ali, batalhando por mim, outra vez, com aquela proposta de Samu da autoestima. Matamos o trabalho e passamos a tarde no salão. Cortei o cabelo, pintei as unhas de vermelho-maria-cereja, fiz a sobrancelha, faxina geral. Lisi me deixou em casa com mil recomendações. Prometi me dedicar. Vesti o uniforme de ginástica, peguei a bolsa e fui, com o gás do dia inteiro de aposta pessoal. Na academia, lembrei porque até hoje resisti à malhação institucionalizada. Havia a turma do jump fazendo um berreiro ensurdecedor, o pessoal da natação compartilhando o vestiário e o povo da musculação disputando os aparelhos, suando e melecando tudo. Ecaaa. Parei diante da ergométrica, vacilei e desisti.

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