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14 de maio de 2015

Diário de valise - 14/09/2013

Fiz coisas boas por mim hoje. Andei. Andei pela cidade sem me preocupar com o relógio, com o destino, com nada, nem com a minha aparência. Meti nos pés os tênis mais detonados, aquela calça de abrigo cinza – que o pai quando me vê usando pergunta se é dia de faxina... -, um moleton vermelho de 2002 e o cabelo bem amarrado em rabo de cavalo. Nos bolsos, só a chave e o celular. Deveria ter levado os fones de ouvido. Esqueci. Fizeram uma falta danada. É que eu queria ficar sozinha com os meus grilos, colocar cada um a cantar em sua devida toca, mas não deu.

Não deu, porque logo ali na esquina onde estão construindo o edifício havia homens trabalhando que me acharam extremamente interessante e nitidamente disposta a dar show na calçada, algo tipo a prima-irmã da Anitta. Estaladinho de beiço, como quando a gente termina de sugar espaguete, palmas e apelos de “prepara” e “poderosa” foi o que consegui distinguir de melhor no meio da algazarra. Apertei o passo e sumi na quadra adiante. Fiquei pensando se voltava lá na obra e, opção 1: revidava aquela chinelagem, exigia respeito, afinal uma mulher não pode mais caminhar que está sujeita a insultos; ou, opção 2: respondia àquela chinelagem, agradecendo o carinho e atenção dos rapazes com a minha pessoa, que afinal passou tanto tempo trancada em casa e está com a autoestima do tamanho de um piolho de galinha. Pensei de novo e optei pela terceira alternativa: esquecer aquela chinelagem e seguir meu rumo.

Não deu. Não deu para seguir meu rumo e insistir no passeio reorganizador de ideias, pois chinelagem atrai chinelagem, só pode. No começo da 24 de maio, larga e movimentada, um engarrafamento. Eu, a pé, poderia atravessar tranquilamente entre os carros se cuidasse os motoqueiros, mas o caso é que eu detesto descumprir regras sociais, passo mal depois. Nessa rua, só atravesso na faixa de segurança, com sinal verde para pedestre. E a sinaleira láááá longe. Não me importo com tranqueira de trânsito, acho que é problema de gestão pública que deve estar em avaliação constante pela secretaria encarregada. Meu ranço é com os motoristas solidários, aqueles que gostam de compartilhar com to-do ouvinte num raio de 50 quilômetros o som que escutam no carro. No último tracinho do volume! Nunca aconteceu de uma criatura dessas tocar dos meus preferidos, Oswaldo Montenegro, Adriana Calcanhoto, um Zeca Baleiro, que seja, nunca. Demorei a cruzar a faixa e atravessar a praça. Demorei todo o retorno até em casa para descolar da cabeça aquele funk-chiclete dos infernos.

Voltei mais agoniada do que estava quando saí. Tem poucas coisas que limpam um peito apertado em dois tempos: compras, comida e faxina. Estou numa situation tal que um real faz milagre e um quilo a mais faz desastre. Sobrou o balde e a vassoura. Tasquei a trilha sonora apropriada e deixei o apê cintilando. Só faltava o banho de arremate. Ao escolher a roupa para vestir, descubro um pandemônio na gaveta das calcinhas. Era bem capaz de ter insônia ignorando aquele caos. Há quanto tempo estava assim? Há quanto tempo estive assim? Vai ver matei a charada, que a gente na verdade é meio gaveta de calcinhas, só funciona arrumada. Esta noite durmo sossegada, em paz.

Por via das dúvidas, arrumei a gaveta da meia-calça também.

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