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quinta-feira, 7 de maio de 2015

Diário de valise - 09/08/2013

Ressaca moral é bem pior do que gelatina de limão. Depois daquele episódio com o papa, os remédios, o Keep Cooler Black Morango e o intruso, com participação especial da minha mãe e da polícia no meu apartamento, perdi completamente a vontade de deixar qualquer anotação para a posteridade. Levei uns dias para querer sair na rua de novo, olhar as pessoas, retomar a minha rotina de moça adequada, que não dá problema. Eu achei, de verdade, que estava livre da montanha-russa emocional, que tinha amadurecido o suficiente para segurar o meu tchan sozinha, que nunca mais teria o desejo inadiável de sumir, mas não.

Entendi que há machucados para os quais simplesmente não existe cura e que é necessário aprender a lidar com casquinhas de feridas que não cicatrizam e certa quantidade de pus de vez em quando. É o meu pus. Em uma última raspa de otimismo, esse pus é a prova de que algum organismo estranho quis invadir o meu corpo e que estou me defendendo. Qualquer médico irá explicar que uma infecção assim é sinal de que o sistema linfático acionou exércitos de glóbulos brancos para combater o invasor. Tá bem que misturar bebida e emagrecedor não prescrito não é exatamente uma estratégia eficaz, mas a metáfora serve. Havia um invasor na minha casa, juro, eu ouvi. Preciso dessa certeza. Não sou louca. Estou lutando. Estou me defendendo.

Avante, soldados!
Ai, não quero mais pensar nisso. Já faz duas semanas e agora me sinto mais organizada, mais perto do eixo. Quero ser daqui para a frente, chega desse negócio de rememorar fracasso, de remoer descontrole. Para que me cobrar tanta constância nessa bagunça de mundo, né? Claro que é. E tudo certo, diário serve para a gente se explicar, mesmo, para esquartejar culpas e ficar examinando pedacinho por pedacinho até ser capaz de virar a página e esquecer que em algum momento aquele guisado de tormento fez sentido. Vou ficar bem, bem, de novo. Até que. Enfim, não quero mais pensar nisso.

Tirei os pontos e estranhei muito as crateras que ficaram no lugar dos sisos. Lá dentro cabe arroz, feijão, salada, uma refeição completa para depois, hahahaha. Já compensei a fome de sólidos com almoços e jantas na casa da mãe. A comilança em família é um pretexto para me manter por perto, em segurança, e eu adoro. Me faz um bem danado deixar o tempo passar vagabundeando, enquanto rio com as manas, bato papo com o pai, elogio a habilidade da mãe na cozinha, ouço a vó Benta falar da vida que foi, enquanto me acomodo em mim outra vez.

Deixei para lá aquele rolo amoroso que me ocupava antes da função dos dentes. De repente parei de pensar nele com urgência. O que menos me interessa por hora é rabicho com quem quer que seja. Ando com vontade de caminhar sem rumo, um passo, outro e outro e outro, fone nos ouvidos. Parece que o frio Sibéria deu uma trégua e é possível reparar ameaços de Primavera. Com sol fica tudo mais fácil nessa vida. Agosto vai pelo meio e logo será tempo de voltar ao dentista. No meio disso tudo, acho que tomei uma decisão: adiar as extrações no lado esquerdo. O que não dói pode esperar.   

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