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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Diário de valise - 26/07/2013

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Nota mental que passa a nota real e efetiva, grifada com esferográfica azul ponta grossa, para jamais ser esquecida nessa vida linda que eu tenho: promessa que a gente faz para si mesma nunca dá certo. É questão de tempo para algum gatilho disparar a autossabotagem. Querido diário, eu fiz merda. Fiz. Foi só ficar sozinha para a bagunça dos meus pensamentos saltar do armário, se derramar no chão e sambar nos tapetes da minha autoconfiança. Há alguns dias eu me exibia para as visitas mais chegadas: estou curada. E aí dou esse vexame. Vergonha é pouco. O que estou sentindo agora é um shake de frustração, decepção, tristeza e raiva de mim, tudo quente e sem açúcar. Tudo amargo e intragável.

Da última vez que escrevi aqui esperava uma manifestação mínima de apreço de um certo homenzinho que me interessava. Ele não ligou nos três dias que se seguiram àquela página. Meus pais não vieram mais, pois viajaram para a serra, mas mandaram e-mails. As manas foram junto com eles e seus desejos de melhoras para a banguela aqui vinham ao final dos recados, com beijinhos e saudade. A vó Benta apareceu no primeiro dia com doce de abóbora, ligou no segundo e sumiu no terceiro, o mais crítico. Lisi ligou, mas deixei tocar até cair na caixa postal. Foi o papa, na televisão, no rádio, na internet, no jornal, e também os remédios para a dor que me fizeram companhia o tempo todo. Não dava para evitar a presença deles por perto.

Primeiro fui perdendo aos poucos a vontade de comer, de atualizar meu status nas redes sociais, de levantar da cama, de me mexer. E o meu peito pesando e a garganta trancando e um pavor crescendo e. Chorei agarrada ao travesseiro mais por impulso do que com a intenção de aliviar a angústia. De repente tive a impressão de que havia mais gente na casa além de mim. Prestei atenção, ouvi passos, tinha certeza: alguém caminhava no corredor, apesar de eu ter dado duas voltas à chave na porta da frente. Fosse quem fosse, me encontraria com o mesmo pijama, as mesmas meias e calcinha de dias atrás. Eu não consegui tomar banho. Eu não consegui sair do quarto. Eu não consegui pedir ajuda.

Tão frio no canto do quarto onde fiquei encolhida. Perdi a noção das horas, não sei quanto tempo congelei ali. Até que senti a dor nas feridas dos dentes ausentes e lembrei dos remédios, que estavam na escrivaninha perto do meu estoque particular de Keep Cooler Black Morango. Gosto de arrumar as garrafinhas em linha, junto da impressora e dos livros de decoração, tão bonito assim. E passos no corredor e batidinhas de ponta de dedo na porta do quarto. Pânico. Como pegar água na cozinha com um intruso no caminho? Dor. Frio. Golaços. E se eu dormisse? Se eu sumisse? Golaços. Mãe? Bolinhas para a dor, antibiótico, golaços, olha só, os comprimidos para emagrecer que eu trouxe do Chuí. Últimos goles. Vou acabar com esse marginal que quer me roubar. Feito o estrago. Acordei no quarto dia com meus pais e a polícia no apartamento, a garrafa vazia na mão, meus olhos ovos fritos, parados. Vazio sem fim.

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