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quinta-feira, 23 de abril de 2015

Diário de valise - 25/07/2013

Ah, pois é. Acordei na mesma posição que estava ontem enquanto escrevia aqui. O querido diário agora tem um risco do meio para a ponta da página que só acaba no edredom. Como será que tira mancha de esferográfica das cobertas? Peguei no sono com a caneta na mão, esperando o bonito dar sinal de vida. Deve ter morrido congelado no clima Sibéria que faz lá fora há dias, porque olha... nem uma ligação? Nada, nem a cobrar. Em compensação, minha caixa de mensagem está bem badalada. Só a vó Benta telefonou três vezes e mandou o sms: “Não mastiga que demora mais a sarar, filha! Tem sopa de feijão na geladeira. Um beijinho”. Que fofa. Mil vezes sopa de feijão a canja.

Não senti aquele gosto de carne velha na boca, acho que minha cicatrização é boa. Vou fazer uma festchenha para comemorar a retirada desses pontos. Rodízio de massas, no mínimo, com um petit gateau para finalizar. Dois! Mas até lá, gelatina de limão e paciência. Fiz meia dúzia de planos para esse tempo fora de combate que eu passaria, mas cadê ânimo para cumprir? Páginas do artigo da pós, unhas, sobrancelhas, faxina no guarda-roupa e nas gavetas, resposta a e-mails pendentes, livros por ler. Tudo pedindo ordem e eu só penso em dormir, até quando as visitas me exigem interação. Dentista dos bons esse, me arrancou os sisos e a disposição pela raiz. Que coisa triste. #Chateada.

Vestida de espantalho, com o sapo caolho no pé. :(
Tá, eu tô esperando um paparico do fulano, que ainda não veio, mas não sou dessas que fica deprê por causa de homem. Mas que tem algo estranho acontecendo comigo, isso tem. Muita falta de empolgação para uma pessoa curada como eu. Deixei o meu dia passar hoje, escorrer pela fresta da janela aberta, enquanto estive deitada, cabeça para o alto, olho na tevê. Revoltante a quantidade de bobagem que passa na tevê aberta numa quinta-feira. Pensei que só aos sábados e domingos transbordava mediocridade e mau gosto da programação. Vou fechando a noite com um vazio por dentro que é mais do que fome de pizza. É estranho. É uma ausência, um buraco, um espaço em branco. Não me apetece falar, sair, andar, rir. A Lisi me chamou para dar uma volta de carro lá perto do cais e eu fiz de conta que não vi as chamadas nem as notificações de mensagem. Tô fingindo para a minha melhor amiga e nem culpa me dá.

Eu sabia que isso poderia acontecer, que se eu me desse um pouco de tempo livre as coisas em mim se estapeariam para aproveitá-lo, do jeito que desse. E o jeito das coisas em mim é esse atravessado, que dói e que assusta. Anos atrás fiquei vivendo tanto nesse tempo solto que me perdi. Depois, voltar de lá não é simples, não tem fio de lã para guiar a saída da gente do labirinto pessoal. Não desejo a ninguém tamanho desnorteio, sem começo nem fim.

Tudo bem se ele não me quer mais. Não é por ele. Tem algo parado aqui na região do meu estômago que não se importa com ele. Nem comigo. Tem outras pessoas que me interessam, não tenho pressa. Não é por ele. Não é por elas. É por mim. Parece que estou amolecida e em papas, como tudo o que tenho comido. Sem graça. Desgraça. Quero o meu riso de novo, de verdade e sem repuxo, mas a minha boca mal abre.

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