Páginas

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Diário de valise - 24/07/2013

Carne mal passada. Acordei com gosto de carne mal passada e estragada na boca. Eca. Engoli a primeira saliva da manhã, como qualquer pessoa normal faz quando desperta, e uma papa voltou forte, dolorindo língua e bochecha. Cacei com a mão e corri para o banheiro. Cuspi na pia uma baba com bolotas marrons, sangue coagulado. Lembrei que não tinha mais os últimos dentes do lado direito. Aquelas tralhas nem chegaram a nascer e já me deram uma porção de incomodação. Só de pensar que no próximo mês tem o outro lado para dar cabo, me corre um frio na espinha.

Gelatina não é de deus. Chegaaa!
Já que não tinha jeito mesmo, levei ao pé da letra o repouso de convalescência. Fiz manha, pedi cafuné, e me entupi de gelatina de limão. Que troço terrível, sem gosto, sem graça. Jantei e almocei e jantei canja imaginando macarrão ao sugo. Estou convencida de que minha capacidade de fantasiar é péssima. Batata na água quente em nada se parece com molho de tomate. É uma droga tudo isso, não queria, mas vou precisar ficar offlife uma semana, espero pelo menos perder uns quilos que me atravancam a cintura. Recebi vááááárias visitas desde que cheguei ontem do dentista. Mãe, pai, irmãs, as vós, a Lisi. Mas dele nem um sms, cachorro sem coração. Que custava mandar duas linhas de mensagem de afeto pelo Facebook, que fosse? Nada. Nem uma palavra ainda. Tenho esperanças de que ele apareça aqui agora de noite, com um abraço bem quentinho.

Não consigo articular palavra sem repuxar os pontos. Desisto antes de completar uma frase. Nesse dia e meio de treino fiquei craque em mímica. Aprendi que é melhor pensar antes de sorrir e usar, em vez dos dentes da frente à mostra ou dos lábios em forma de gomo de bergamota, uma cara de coreana. É espremer os olhinhos que a galera entende satisfação. O polegar para cima também funciona que é uma beleza. Dei mais joinhas ao vivo do que em postagens do Félix Bixa Má hoje. Fui bem tratada como há muito tempo não acontecia. Liguei o botão da carência e quem diz de desligar? Acho que paparico é sempre insuficiente.

Fez sol e fez frio na rua e eu não pude sair. Tive que me contentar com o filme depois da novela – sem nem um sacão de pipoca para tornar a coisa toda mais digerível – e com os álbuns de fotografia da infância. A vó Benta trouxe de casa aquela caixa gigante com as fotos de, sei lá, três gerações dos Mendes. E, sim: todo mundo que passou pelo meu quarto contou uma história trágica de siso. E, sim, também, toda a conversa descambava em papo de comida. Até receita o povo trocou aqui, na minha frente. Eu vesga de fome de qualquer coisa sólida. De dez pensamentos meus, nove são em refeições. O restante é algo do tipo: onde estará o Fulano? A gorda que tenho por dentro está descontrolada. Sonhei com chocolate quente e panquecas a noite passada. Levei quarenta minutos para terminar um pão, molhando pedaços do tamanho de grãos de feijão no café. Detesto carne, mas até um bife acebolado cairia bem nesse momento. Melhor até do que a visita dele. Isso: meu reino de princesa banguela por um churrasco.

Nenhum comentário:

Postar um comentário