Páginas

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Diário de valise - 23/07/2013

Medo todo mundo tem. De assalto, de noite, de altura, de escuro, de mar, de parto. Tem medos que são comuns, que tem a ver com perigos diante da fuça da gente, e medos que são mais difíceis de fazer relação com ameaças reais, tipo medo de palhaço, de lagartixa, de anão (acho estranhíssimo, mas sei de gente que tem e não julgo. Costumo amenizar dizendo que a pessoa tá se esforçando para curar sua fobia andando comigo...). Por baixo dos terrores todos, dizem, está o medo de morrer. Eu acho que é verdade, mesmo. Só pode ser. É a única explicação para o que tem me acontecido.

Não sou mulher maravilha, mas me esforço para dar conta do recado. Não amarelo por qualquer coisa, não me mixo para subir em telhado, não recuso um negócio arrojado se vislumbro perspectiva de sucesso, não deixo para outro dia uma discussão por receio de o-que-vão-pensar-de-mim, tiro tudo a limpo. Daí que eu reparei que já fui assim, cheia de coragem, até bem pouco tempo. Nos últimos meses tenho vacilado. Vacilado comigo.

Um papel assinado pelo Detran dentro da minha carteira garante que eu tenho plenas condições de conduzir um automóvel na cidade, mas não me animo a tirar o carro da garagem nem em caso de emergência. Digo que o caos do trânsito me impede e prometo nas próximas férias, com tempo, dar jeito nisso. Protelei ginecologista com medo de me submeter a Papanicolau e bati pé com a mãe que aquela chiadeira no meu peito era só o final de um resfriado para não ter que ouvir de um pneumologista que a asma estava voltando. Penso toda vez: se não há dor, há saúde. Vou levando desse jeito até o extremo, o limite, o inadiável. Duas semanas atrás começaram as dores. Se há dor, falta saúde. Meu deus.

Passei a ter dores no lado direito da cabeça, pelos olhos, ouvidos, garganta, nem sabia mais dizer. É dente, me alertavam. Sei desde os 12 anos, por causa de um raio-x dos seios da face, que meus sisos seriam problemáticos, mas se até hoje não tinham dado as caras, permaneceriam adormecidos, hibernando aquecidos nas minhas gengivas, pensei. Mas não. Eram eles, realmente, reclamando rua. Uma rua que a minha boca não poderia dar. Atravessados, anunciavam extrações delicadas, mas possíveis, seguras. Dito isso, o dentista poderia jurar qualquer coisa, até que a cirurgia arrebitaria meu nariz, que eu não daria ouvidos. Sem escolha, marquei a retirada dos dentes para dali quinze dias. Vai perder o juízo, tentavam me animar, em vão.

Que remédio? Bora dar jeito nesses bandidos inclusos! #força

Conscientemente, compreendia a urgência de tirar os sisos, procedimento cirúrgico simples, mas meu corpo pedia fuga para o Japão. Fui inundada por uma agonia que nem sei explicar. Palpitação, suador nas mãos, unhas roxas, pavor, tudo isso aumentando até o momento da anestesia. Eu sabia que não doeria nada, que era para o meu bem, mas e daí? Certeza de que eu morreria na cadeira. E eu morri um pouco ali, como tenho morrido a cada sinuca de bico em que me enfio. Entrei tão fundo dessa vez que até fiquei menstruada fora do tempo. É que o medo faz sangrar. Sempre.

Nenhum comentário:

Postar um comentário