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2 de abril de 2015

Diário de valise - 19/07/2013

Eu não sou ninguém na ordem do dia, da semana, do mês, do ano, enfim, do século, nesse mundão de meu deus. Eu não sou nada e a minha opinião não compra meio quilo de guisado de segunda no açougue, ninguém quer saber, mas mesmo assim dou. A torto e a direito. Porque eu já saquei de mim que qualquer palavrinha guardada vida ferida, normalmente na língua, e dói. Então, que eu não tenho mais pudor de dizer coisa alguma que me dê na veneta. Só cansaço. Se as vezes deixo de falar é por pura exaustão, por lamentar que palavra é mais bumerangue do que eco, e por economia, que se ela vai voltar do mesmo jeito que saiu de mim, que fique por aqui, aquecendo o meu coração e as minhas tripas.

Foi por falar, insistir e repetir, de olhos arregalados e dedo indicador em pé, que ganhei a fama de crica. Foi pelo hábito de torcer o nariz e sacudir a cabeça pra esquerda e para a direita em sinal de desagrado para o que eu sinto inadequado, incorreto e injusto – e o gesto é tão fala quanto o grito, para mim – que até os mais próximos me tem por chata. O apelido de valise, por exemplo, que a Lisi me deu e disse que pegou por ser “perfeito” para mim, é algo que eu não contesto. Espero que morra pelo desuso. Nunca foi minha intenção ser mala. Mas eu não abro mão de ser honesta e de exigir o mesmo de quem está nessa vida comigo. Já fiz muita besteira, tenho plena noção, mas se da enxurrada particular de erros a pessoa não aprende nada, deve mais é jogar a toalha, desistir, vestir duma vez a carapuça de robô que tanto alardeiam e vendem por aí.

Técnica de autoconvencimento. Hehehe.
Não sou um robô. Digo isso na frente do espelho para aquela cara gorda que me olha todos os dias. Não somos robô. Quero que ela, a do espelho, resista. Que ela vá para o trabalho com esperança nos bolsos. Pode haver surpresas lá, uma reviravolta, pode ser que a satisfação comece a nascer de novo, pode ser que haja outra vez espaço para a iniciativa, para autonomia, para a criatividade, para a voz. Mas até agora não houve. Antes de dormir, enquanto escovo os dentes, olho fundo nos olhos dela, a do espelho, e me esforço para dar-lhe uma injeção de ânimo, que me falta: amanhã vai ser melhor. Ela espreme os olhos como que sorrindo, com espuma de creme dental transbordando os lábios e escorrendo até o queixo, parece que insistindo, resignada: amanhã vai. No fundo a gente já entendeu que só nos querem para apertar parafusos.

Nada contra quem vive de apertar parafusos, mas eu não curto. A minha onda é juntar os parafusos e fazer, sei lá, escultura com todos. Esculturas ainda são úteis. Escultores é que não, nesse tempo em que qualquer coisa pode ser reproduzida. Eu queria ser como a Lisi, que dá suas aulas de inglês e no final do dia ainda está maquiada e disposta a uma cerveja em qualquer bar descolado. Deve ser isso maturidade, quando se consegue entrar e sair no que precisa ser feito sem se deixar contaminar pelo que falta, pelo que não vai se ajeitar. Eu não sei ser assim. E tenho uma raiva danada de quem me ensinou que a gente só se completa se trabalhar no que gosta. E quando não dá? E quando o trabalho mata aos pouquinhos o afeto pela profissão? Estou condenada, acho.

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