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terça-feira, 3 de março de 2015

O filho eterno e a minha leitura implicante



Devo andar às voltas com o livro O filho eterno, do Cristovão Tezza, desde novembro do ano passado. Ouvi o Tezza falando lá na PUCRS, palestrando em um evento literário e foi sensacional. É, sem dúvida, um escritor admirável, pela obra e pela trajetória, pela simplicidade com que contou a si mesmo diante de uma plateia interessada, composta por estudiosos da literatura e escritores iniciantes, gente que ouviu atentamente cada palavra que ele disse. É tão bacana, tão inspirador, quando um escritor experiente compartilha processo criativo como quem se despe. Cria, na hora, uma cumplicidade com o leitor que vai além do livro impresso. Comigo funciona, normalmente viro fã. Nos últimos anos virei fã assim da Lélia Almeida, da Patrícia Reis, do José Luis Peixoto, da Lídia Jorge, da Lia Luft, do Tezza, muito.

Sabia vagamente do trabalho do Tezza (um dia coloco as leituras da vida em dia, esse é um plano) e tinha ouvido elogios ao O filho eterno, bastante premiado entre 2007 e 2009 e traduzido por aí. Como o meu trabalho no doutorado tem a ver com maternidade, a relação mãe-filhos, a possibilidade do contato com uma narrativa atual, provavelmente pela perspectiva narrativa do pai, me deixou interessada, ainda mais porque o filho ficcionalizado era um Down nascido na década de 80, certo que a relação contada seria delicadíssima. Entendi que o romance tinha inspiração autobiográfica e que era uma história que custou a nascer, que teve produção dolorida justamente por isso, pelo desafio complexo de o autor fazer invenção da própria vida. Talvez estivesse nessa leitura o ponto de equilíbrio e de sensibilidade que eu preciso aprender/compreender/experimentar para compor os homens da história que devo parir em breve. 

Alta expectativa. Acho que esse foi meu erro maior. O primeiro capítulo começa com o parto. O parto contado por alguém que acompanha o pai por dentro, os pensamentos e sensações do pai. Ok. legal. Tinha um pouco da mãe ali e alguma coisa do filho vindo. Capítulo dois, três, quatro, e o pai cresce, a mãe some e o filho - o sonho frustrado de filho - é um elemento sobre quem o pai lamenta demais. E por conta disso a história não anda. O jogo temporal que leva a narrativa para a frente e para trás na memória do pai-escritor é interessante e bem costurado, mas acaba chato, não sei ainda se porque o narrador parece tentar ironizar o personagem pai e acaba elogiando sua culpa, sua imaturidade, seus fracassos ou se porque tanto o narrador como o pai se referem ao filho de um jeito tão pejorativo que faz dos dois - o mesmo - uns canalhas difíceis de engolir. 

A leitura me larga um pouquinho cada vez que o filho é tratado por idiota. O apagamento sistemático da mãe é incompreensível para mim. Acho que a história perde muito investindo nas reflexões do personagem pai-escritor-oh-que-infeliz e mostrando pouco das interações entre pai e filho. A incapacidade, a frustração, a dificuldade do pai de elaborar afeto pelo filho seriam bem mais aceitáveis, para mim, se se mostrassem mais por atos e menos por pensamento. Os conflitos morais do pai são dilacerantes o tempo todo, mas brilhantemente contados no episódio em que o menino some, por exemplo. Mas isso é lááá no final. Se a ideia era fazer o leitor odiar o pai, quase deu certo. E é esse quase que me incomodou. Eu esperava um tijolo maciço desse livro e me veio um de seis furos, muito bem arquitetado e acabado, mas que me tocou de raspão. Não sei dizer ao certo, mas sinto que é a pretensa crueldade do pai que não me convence. Ainda falta um capítulo para terminar (sim, estou levando uma eternidade para ler tudo, para elaborar esse texto em mim). Torço para que o desfecho da história desmanche a minha implicância e me sensibilize, me acerte em cheio no meio da testa. De verdade.

[Fiquei pensando se minha picuinha com o narrador, com o pai, com os dois, não é somente por causa do estranhamento relativo ao apagamento da figura feminina. Vai ver esse efeito de incômodo é justamente por causa da inversão da lógica na relação parental: não me parece possível contar uma história de aparência real sobre vínculo entre pai e filho sem atravessamentos decisivos da figura da mãe. O caso, no fundo, é que eu tô chateada por não ter curtido um monte esse livro. Eu queria.]     

 

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