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quinta-feira, 12 de março de 2015

Diário de valise - 14/07/2013

Raramente reclamo da minha altura, mas sempre aparece um espírito de porco para fazer uma piadinha do tipo: pintora de rodapé, salva-vidas de aquário, toco de amarrar bote. Normalmente levo na boa, fazendo o sorrisinho de tô nem aí. Quando me pegam atravessada digo meia dúzia de desaforos para encerrar o assunto. Nunca me interessei por esportes que tenham a estatura como pré-requisito. Vôlei e basquete só no videogame e olhe lá. Só que tem coisas para as quais dez ou quinze centímetros fazem toda a diferença. Hoje, mesmo, abri mão de uma baita curtida, pois não tive coragem de enfrentar a sovaqueira. Fiquei vendo clipes do Roupa Nova no Youtube.

Já quase perdi um namorado por causa do pouco mais de metro e meio que ocupo no mundo. Ô, figurinha. Tinha de bom o gosto musical e de ruim uma lista maior do que a do supermercado que eu faço uma vez por mês, quando não dá mais para passar sem papel higiênico e café solúvel. Mas adotei a filosofia de olhar a metade cheia do copo. Na metade cheia do copo dele sobrava bom humor, e nesses tempos áridos isso por si já é fortuna. Viver de amor, de sorrisos e de moedas contadas. Quem nunca.

Tá, e eu lembrei de namo passado a troco de quê? Ah, sim. Por causa do show do Roupa Nova, que eu não fui. [Que tristeeeeeeza!] Admirava nele a persistência. Não tinha tempo ruim, não tinha impossível. O diabo do cara não perdia um show de rock. Fazia malabarismos financeiros para juntar a grana do ingresso e se mandava. De carona nem que fosse. Uma vez, cismou de me levar para ver o Slash, num domingo à noite, em Porto Alegre. Deve estar arrependido até agora. A-mo Porto Alegre. Negociei: iria se ele me levasse no Praia de Belas de tarde, se rolasse programete de namoradinhos, cinema e pipoca, depois uma olhada rápida nas lojas, porque eu precisava demais de uma bolsa nova. Pensando bem, acho que ele usou a estratégia em que eu sou mestre, a de mandar só o corpo para um lugar chato, no caso ao shopping comigo, pois não reclamou de nada, nem um pio. Coitado.

Não, coitada de mim, que errei feio no figurino naquela noite. Bom registrar para não repetir com bofe novo. Tentei o saltão. Queria garantir alguma visibilidade. No caminho fui rezando por telões dos lados do palco. Lá, tive certeza de que deus, se existe, me quer morta com farofa temperada acompanhando batata soute: não havia sequer meio telão. Era a sucursal do inferno aquilo, gente passando mal pelo excesso de calor e despencando no piso molhado de suor de umas duas mil pessoas espremidas. Para piorar a desgraça, o sapato tinha me feito bolhas até nos tornozelos. O namorado querendo se enfiar na multidão para ver o ídolo mais de perto. Eu, que de onde estava só via sovacos, não suportaria andar nem três passos à frente. Capaz de morrer. De nojo. Porque de jeito maneira me deixaria cair naquela imundície. Mala, ele disse que eu era. Mala da vida dele. Pude ver o Slash, aliás, a cartola e um pedaço da testa, durante uns vinte segundos.


Depois disso, show de novo só em teatro, bem sentada. Decidi: sovaqueira nunca mais. Nem namorado que faça questão de música ao vivo.

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